Notícias
Mostra revela face austera de Graciliano

20/01/2003

Graciliano Ramos

 

Nos 50 anos de sua morte, escritor ganha exposição em São Paulo e é tema de propaganda política em Alagoas

XICO SÁ
CRÍTICO DA FOLHA

   A intenção não era nada literária, mas com as burocráticas prestações de contas da sua gestão como prefeito de Palmeiras dos Índios, no sertão alagoano, Graciliano Ramos foi descoberto como escritor, no começo dos anos 30 do século passado.

   Agora no ano do cinquentenário da sua morte, o autor de "São Bernardo", o mais seco e violento romance brasileiro -o avalista nesse caso é o crítico Antonio Candido- retorna, vereda dos passos de alpercatas ao contrário, da literatura para virar símbolo de austeridade política.

   O velho Graça (1892-1953) foi eleito pelo governo do seu Estado, com direito a cartazes de campanha e tudo, "o pai da gestão fiscal responsável". Como prefeito, dava satisfação aos vivos e aos mortos. "No cemitério enterrei 189$000 -pagamento ao coveiro e conservação", escreve, nos relatórios de 1929 a 1930.

   O governador Ronaldo Lessa (PSB-AL), reeleito em um pleito dramático contra o ex-presidente Fernando Collor, no ano passado, adotou Graciliano como símbolo da Lei de Responsabilidade Fiscal, a tábua que determina, entre outras exigências, que os administradores estão proibidos de gastar mais do que arrecadam.

   "Já naquela época, com seus relatórios sobre a Prefeitura de Palmeiras dos Índios, mostrou o caminho da ética e da gestão fiscal responsável. Sua obra é motivo de orgulho especial para os alagoanos", disse o governador, que abre, terça-feira em São Paulo, a exposição "O Chão de Graciliano", no Sesc Pompéia.

   Espécie de "museu de tudo" da vida e obra do escritor, a mostra tem a mira certeira do fotógrafo Tiago Santana, cearense de Barbalha, que bateu pernas pela região de Palmeiras dos Índios e trouxe de lá o mundo todo de Graciliano e seus arredores. É o que pode ser visto aqui na São Paulo de sotaque mais sertanejo do que muitas capitais -ah, a fraqueza litorânea!- do Nordeste.

   Como é próprio do dizer semi-árido, a curadoria, do jornalista alagoano Audálio Dantas, conhecedor de cor da memória do homem de "Vidas Secas", botou "pra arrombar" na sua coleta.

Contrabando

   Os relatórios que dão a fama de governante austero a Graciliano chegaram ao Rio - "contrabandeados", segundo o escritor e amigo do alagoano Joel Silveira- e passaram por mãos de gente como Sérgio Buarque de Holanda, Marques Rebelo e, finalmente, Augusto Frederico Schimidt, poeta que era dono de uma editora na época. Um assombro.

   Schimidt viu que, por trás daquelas linhas tortas enviadas somente ao governador de então, Álvaro Paes, havia um prosador de primeira. E aí começou a saga do autor de "Angústia".

   Em 94, a editora Record, em parceria e por iniciativa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, publicou a última e mais substanciosa edição, com direito a inéditos, dos "Relatórios" de Graciliano. O organizador, Mário Hélio, que agora edita a revista de cultura "Continente", do Recife, revirou os sótãos alagoanos -mal-assombrados ou não- em busca da vida do prefeito.

   "Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abririam só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis", conta o velho Graça sobre as obras públicas. "Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca", deita lição para os administradores.

   Assim na gestão como na literatura, sempre econômico. Afinal, dizia ele, a boa escrita imita a arte das lavadeiras de roupa acocoradas à beira dos rios e açudes de Alagoas. Carece de bater na pedra e enxugar o pano, uma, duas, três vezes, até levá-lo ao varal quase sem água. Escrever é secar ao sol.

(© Folha de S. Paulo)

Documentos explicam a origem do escritor
 

SIMONE IWASSO
DA REDAÇÃO

   "O Chão de Graciliano", exposição organizada pelo Sesc Pompéia, a partir de terça-feira em SP, apresenta ao público registros e fotos que contam parte da história do escritor alagoano, como o relatório de prestação de contas da cidade de Palmeira dos Índios, de 1929. Na época, o documento impressionou o governador de Alagoas e chamou a atenção do editor Augusto Frederico Schmidt para o então prefeito Graciliano Ramos.

   O "chão" do título da exposição é a região de Quebrangulo, Viçosa, Palmeira dos Índios e Maceió, em Alagoas, e Buíque, no sertão de Pernambuco, cidades nas quais o escritor viveu enquanto escreveu boa parte de sua obra, como "Caetés", "Angústia", "Vidas Secas" e "São Bernardo".

   Assim como nos personagens desses livros, que sofrem em seu corpo e caráter as influências da vida sertaneja, a reunião de documentos, fotos e objetos da exposição pretende oferecer um panorama da paisagem e do ambiente no qual se formou o escritor.

   "As imagens das cidades, acompanhadas dos documentos e objetos reunidos, mostram o pedaço de chão no qual Graciliano criou sua literatura", explica Audálio Dantas, curador da exposição.

   Do acervo do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros da USP), do Museu da Casa de Graciliano Ramos, de Alagoas, e de coleções particulares, vieram cartas do escritor para sua mulher, Heloísa Ramos, o livro de prestação de contas de Palmeira dos Índios, manuscritos e provas tipográficas com correções do escritor.

   De Alagoas vieram exemplares dos jornais que, na década de 20, recebiam colaborações do escritor, que assinava a coluna "Traços a Esmo" com pseudônimo de J. Calisto, e a semanal "Fatos e Fitas", como Anastácio Anacleto.

   A mostra se completa com o ensaio fotográfico de Tiago Santana, que passou pela região de Palmeira dos Índios, além de uma programação com aulas, peças de teatro, filmes baseados nas obras do autor e contadores de história.

(© Folha de S. Paulo)


Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind


Google
Web Nordesteweb