Nos 50 anos de sua morte, escritor ganha
exposição em São Paulo e é tema de propaganda política em Alagoas
XICO SÁ
CRÍTICO DA FOLHA
A intenção não era nada literária, mas
com as burocráticas prestações de contas da sua gestão como prefeito de Palmeiras dos
Índios, no sertão alagoano, Graciliano Ramos foi descoberto como escritor, no começo
dos anos 30 do século passado.
Agora no ano do cinquentenário da sua
morte, o autor de "São Bernardo", o mais seco e violento romance brasileiro -o
avalista nesse caso é o crítico Antonio Candido- retorna, vereda dos passos de
alpercatas ao contrário, da literatura para virar símbolo de austeridade política.
O velho Graça (1892-1953) foi eleito pelo
governo do seu Estado, com direito a cartazes de campanha e tudo, "o pai da gestão
fiscal responsável". Como prefeito, dava satisfação aos vivos e aos mortos.
"No cemitério enterrei 189$000 -pagamento ao coveiro e conservação", escreve,
nos relatórios de 1929 a 1930.
O governador Ronaldo Lessa (PSB-AL),
reeleito em um pleito dramático contra o ex-presidente Fernando Collor, no ano passado,
adotou Graciliano como símbolo da Lei de Responsabilidade Fiscal, a tábua que determina,
entre outras exigências, que os administradores estão proibidos de gastar mais do que
arrecadam.
"Já naquela época, com seus
relatórios sobre a Prefeitura de Palmeiras dos Índios, mostrou o caminho da ética e da
gestão fiscal responsável. Sua obra é motivo de orgulho especial para os
alagoanos", disse o governador, que abre, terça-feira em São Paulo, a exposição
"O Chão de Graciliano", no Sesc Pompéia.
Espécie de "museu de tudo" da
vida e obra do escritor, a mostra tem a mira certeira do fotógrafo Tiago Santana,
cearense de Barbalha, que bateu pernas pela região de Palmeiras dos Índios e trouxe de
lá o mundo todo de Graciliano e seus arredores. É o que pode ser visto aqui na São
Paulo de sotaque mais sertanejo do que muitas capitais -ah, a fraqueza litorânea!- do
Nordeste.
Como é próprio do dizer semi-árido, a
curadoria, do jornalista alagoano Audálio Dantas, conhecedor de cor da memória do homem
de "Vidas Secas", botou "pra arrombar" na sua coleta.
Contrabando
Os relatórios que dão a fama de governante
austero a Graciliano chegaram ao Rio - "contrabandeados", segundo o escritor e
amigo do alagoano Joel Silveira- e passaram por mãos de gente como Sérgio Buarque de
Holanda, Marques Rebelo e, finalmente, Augusto Frederico Schimidt, poeta que era dono de
uma editora na época. Um assombro.
Schimidt viu que, por trás daquelas linhas
tortas enviadas somente ao governador de então, Álvaro Paes, havia um prosador de
primeira. E aí começou a saga do autor de "Angústia".
Em 94, a editora Record, em parceria e por
iniciativa da Fundação de Cultura Cidade do Recife, publicou a última e mais
substanciosa edição, com direito a inéditos, dos "Relatórios" de Graciliano.
O organizador, Mário Hélio, que agora edita a revista de cultura "Continente",
do Recife, revirou os sótãos alagoanos -mal-assombrados ou não- em busca da vida do
prefeito.
"Procurei sempre os caminhos mais
curtos. Nas estradas que se abririam só há curvas onde as retas foram inteiramente
impossíveis", conta o velho Graça sobre as obras públicas. "Não favoreci
ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da
inteligência, que é fraca", deita lição para os administradores.
Assim na gestão como na literatura, sempre
econômico. Afinal, dizia ele, a boa escrita imita a arte das lavadeiras de roupa
acocoradas à beira dos rios e açudes de Alagoas. Carece de bater na pedra e enxugar o
pano, uma, duas, três vezes, até levá-lo ao varal quase sem água. Escrever é secar ao
sol.
(© Folha
de S. Paulo)
| Documentos explicam a
origem do escritor |
| SIMONE IWASSO
DA REDAÇÃO
"O Chão de Graciliano",
exposição organizada pelo Sesc Pompéia, a partir de terça-feira em SP, apresenta ao
público registros e fotos que contam parte da história do escritor alagoano, como o
relatório de prestação de contas da cidade de Palmeira dos Índios, de 1929. Na época,
o documento impressionou o governador de Alagoas e chamou a atenção do editor Augusto
Frederico Schmidt para o então prefeito Graciliano Ramos.
O "chão" do título da
exposição é a região de Quebrangulo, Viçosa, Palmeira dos Índios e Maceió, em
Alagoas, e Buíque, no sertão de Pernambuco, cidades nas quais o escritor viveu enquanto
escreveu boa parte de sua obra, como "Caetés", "Angústia",
"Vidas Secas" e "São Bernardo".
Assim como nos personagens desses livros,
que sofrem em seu corpo e caráter as influências da vida sertaneja, a reunião de
documentos, fotos e objetos da exposição pretende oferecer um panorama da paisagem e do
ambiente no qual se formou o escritor.
"As imagens das cidades, acompanhadas
dos documentos e objetos reunidos, mostram o pedaço de chão no qual Graciliano criou sua
literatura", explica Audálio Dantas, curador da exposição.
Do acervo do IEB (Instituto de Estudos
Brasileiros da USP), do Museu da Casa de Graciliano Ramos, de Alagoas, e de coleções
particulares, vieram cartas do escritor para sua mulher, Heloísa Ramos, o livro de
prestação de contas de Palmeira dos Índios, manuscritos e provas tipográficas com
correções do escritor.
De Alagoas vieram exemplares dos jornais
que, na década de 20, recebiam colaborações do escritor, que assinava a coluna
"Traços a Esmo" com pseudônimo de J. Calisto, e a semanal "Fatos e
Fitas", como Anastácio Anacleto.
A mostra se completa com o ensaio
fotográfico de Tiago Santana, que passou pela região de Palmeira dos Índios, além de
uma programação com aulas, peças de teatro, filmes baseados nas obras do autor e
contadores de história.
(© Folha
de S. Paulo) |