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05-06-2008
Siba, do Mestre Ambrósio, desvenda as raízes rurais da música pernambucana
PEDRO ALEXANDRE SANCHES Biu Roque, 69, está sentado à frente da casa à espera de seu amigo Siba, 35. Viajou cedo de sua cidade natal, Aliança, até a vizinha Nazaré da Mata -ambas ficam na Zona da Mata pernambucana, a menos de 100 km de Recife. À tarde, o grupo Fuloresta do Samba vai ensaiar as cirandas e os maracatus rurais que caracterizam a musicalidade da região. Quem lidera o grupo é Siba, que, além de integrante do grupo Mestre Ambrósio, hoje é mestre de maracatu. Biu Roque é o principal dos três vocalistas que respondem em coro aos comandos do mestre. Biu Roque recebe Siba com um sorriso plácido, conta que passou o Carnaval adoentado e avisa que guarda uma surpresa para o final da jornada. Siba fica curioso, dá conselhos sobre alimentação ao amigo e começa o ensaio. Ex-roqueiro que despertou para as sonoridades regionais (e pop) no levante do mangue beat, Siba tem se aproximado cada vez mais do que ouvia na infância de recifense filho de família interiorana. O mergulho para dentro se tornou público em 2002 quando Siba lançou o CD de cirandas e maracatus "Fuloresta do Samba", que batizaria o grupo hoje integrado por homens de 21 a 73 anos. No final de 2003, o Fuloresta acompanhou "No Baque Solto Somente", de Siba em dupla com o mestre Barachinha, 36, natural de Nazaré. O CD registra os códigos de conduta do maracatu rural, também chamado "de baque solto", em contraponto com o urbano, ou "de baque virado". Seria o samba de pernambuco? "Aqui chamamos de samba tudo o que é festa, confraternização. Maracatu é o folguedo de Carnaval daqui, mas, se há um ajuntamento de negros pobres, já chamam de maracatu", explica-confunde Siba. A estrutura é aparentemente simples. Um apito anuncia o início da batucada solta, que pavimenta melodia conduzida por um naipe de sopros. O acompanhamento é suspenso, e o mestre profere os primeiros versos em crônica, que o coro repete obedientemente. Os sopros voltam e a batucada cresce, até que o apito ordene o início de novo ciclo.
O CD tem de se limitar à parte sonora
-em sua expressão total, o maracatu inclui fantasias e sai em cortejo pelas
ruas e praças do interior. "Também existe a sambada, quando dois grupos de
maracatu se encontram e se enfrentam. Sai até briga", ensina Siba. Quando Biu Roque começa a se divertir na percussão e no coro, uma voz sobe entre as demais e a impressão é que uma mulher invadiu a sala da casa-estúdio de ensaio de Siba em Nazaré. Biu diz que o pessoal já está acostumado e não estranha o modo como usa sua voz. Aprendeu a cantar com a mãe e diz cantar e batucar o maracatu desde que se conhece por gente. Marido de dona Maria, 60, tem 20 netos e 36 bisnetos. Ex-lavrador da cana-de-açúcar, praticou todo tipo de trabalho pesado enquanto fazia arte sem saber que fazia arte. As vidas de Siba e de Biu Roque se transformaram paulatinamente desde que o primeiro começou a freqüentar o maracatu em Aliança, há mais de uma década. "Minha ligação com ele é mais que musical, mais forte que com gente da minha família", diz Siba. Ele diz remunerar seus músicos conforme as possibilidades. O aporte de patrocínio em "Fuloresta do Samba" permitiu que pagasse "bem" os músicos. Mas afirma que eles o seguem sem firmar questão sobre dinheiro. "Sei que se der R$ 10 num fim de semana eles vão poder fazer uma boa feira, vão ficar felizes." Após o lançamento de "Fuloresta do Samba", Biu Roque passou a conhecer o Brasil. "Viajei com Siba para São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia. Gosto demais, é muito bom. Se ficar bom da saúde, onde ele for eu vou junto", afirma. Se cabe Biu Roque no Fuloresta, cabe também Dyógenes Santos, 21, que paralelamente desenvolve o politizado grupo local Ticuqueiros, influenciado por mangue beat, Zé Ramalho e luta de classes na monocultura canavieira. Dyógenes conta, orgulhoso, que o site www.ticuqueiros.hpg.com. br, "made in Nazaré", já contém amostras em MP3 do som dos Ticuqueiros (ticuqueiro é o tirador de ticuca, um dos agricultores da cultura açucareira). Com esse grupo heterogêneo de músicos, Siba já arquiteta novos trabalhos em CD, em que pretende explorar a herança sutil da cultura árabe no Nordeste e a cantoria de viola -desenvolvida, segundo descreve, a partir da incorporação de músicos escolarizados ao massapê do maracatu. Ele desacredita da aparência de simplicidade da música tradicional de sua terra. "É ilimitada, inesgotável, me dá campo criativo para o resto da vida." O ensaio acabou, a noite caiu. Em seu carro, Siba devolve a Aliança Biu Roque e seu filho Mané Roque, também integrante do Fuloresta. É quando Biu conta que perdeu um outro filho para São Paulo -"não O vejo faz 20 anos, nem sei se está vivo". Siba conta de uma possível excursão do Fuloresta pela Europa, ainda em 2004. O olhar de Biu Roque se acende e ele pergunta, sorridente: "Eu vou junto?". E indaga o repórter: "Você é de São Paulo ou da Europa?". Entregue em casa, exige que o padrinho-afilhado faça parada em sua casa e se alimente do que ele pode dar por retribuição. Vem a surpresa prometida. Biu Roque fez dona Maria preparar ensopado de carne de tatu, um dos pratos prediletos de Siba. (© Folha de S. Paulo) Gênero desafia lemas do pop industrial DO ENVIADO A NAZARÉ DA MATA O maracatu de baque solto até parece, num primeiro golpe, uma forma primitiva e rudimentar de música. Conforme o freguês se embrenha no canavial, entretanto, surgem surpresas daquelas de dar aula de música e sabedoria à indústria fonográfica nacional. O maracatu é rígido, rigoroso e
dotado de todo um sistema de regras. A poética, apesar de ser em geral
intuitiva e inculta, exige habilidade e elaboração. O ineditismo também é exigido. O mestre de maracatu tem de ser autor dos versos que canta, e a cada apresentação é cobrado a oferecer novas composições. Também por isso Siba e Barachinha desprezam os temas de domínio público e compõem eles próprios todo o material de "No Baque Solto Somente". Está aí o paradoxo, se se pensar na atual música popular de indústria. A sonoridade marcada do maracatu é que faz pensar em limitação e redundância, mas, se um artista de MPB viesse apresentar suas eternas releituras e reciclagens "ao vivo" num maracatu, seria vaiado no ato. Embora se associe com ancestralidade, o baque solto reivindica também constante atualidade em suas crônicas musicais. Uma faixa do CD de Siba e Barachinha se chama "Clonagem" e satiriza o desejo de divindade do homem de ciência. Exala sabedoria popular que a indústria musical extirpou, por exemplo, do axé baiano. Mas guarda em comum com o samba da Bahia certa tendência à agressividade dissimulada, que é elemento constitutivo dos enfrentamentos em sambadas. Seguindo os ditos populares, chega a veicular preconceitos. Em diversas ocasiões, os xingamentos bem-humorados de parte a parte levam Siba a tratar Barachinha de "macaco". No duelo cordial de "Samba Curto", ele "xinga" o colega repetidas vezes de travesti, provocando risadas, mas também reiterando mansas agressões contra a classe marginalizada. Siba diz que é só brincadeira. Em outro pólo, ele diverge da hierarquização que desvaloriza os poetas analfabetos. Veta versos "errados" em suas composições, mas dá livre expressão à oralidade dos cantores de seu coro. Em "Maria, Minha Maria", do disco "Fuloresta do Samba", por exemplo, deixa a imaginação intuitiva de Biu Roque voar. Nos versos de domínio público "ô, que noite tão preciosa/ não deve dormir quem ama", Biu Roque escapa do coro e canta "espreciosa" em vez de "preciosa". Misturando por intuição as qualidades de "especial" e "precioso", Biu Roque mostra que a fuga das regras se esconde dentro das próprias regras -e dá lição à indústria fonográfica que ele nem sequer conhece. (PAS) (© Folha de S. Paulo)
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