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Alma de cantador

20/01/2006

Eugênio Avelino, o Xangai
 

Com três de seus antigos discos relançados e o primeiro DVD sendo finalizado, Xangai supera as dificuldades de três décadas como artista independente e conduz a carreira longe das imposições das gravadoras multinacionais

Nelson Gobbi

   A diferença entre o cantor e o cantador vai além de uma simples questão morfológica. Pelo menos na visão de Xangai, que se define como cantador, por entender que o termo exprime sua arte de forma verdadeira, de dentro para fora, ao contrário de muitos artistas que, para ele, se tornaram apenas cantores ao cederem às imposições das gravadoras multinacionais. A postura crítica do cantador, compositor e violonista baiano o levou a romper com o sistema produtivo das majors há quase 30 anos, depois de se decepcionar com a gravação de seu primeiro disco, Acontecivento (1976), pela antiga CBS, hoje Sony/BMG. Desde essa época, Xangai produz seus trabalhos de forma independente. Três deles foram relançados no fim do ano passado pelo selo carioca Kuarup: Qué qui tu tem canário (1981), Eugênio Avelino (1990) e Dos labutos (1991).

   Os antigos discos, que estavam praticamente fora de catálogo, preencheram uma lacuna junto ao público do artista, que há muito o vinha cobrando o relançamento dos títulos. Além dos três CDs, os fãs de Xangai têm outro motivo para comemorar: a Kuarup está finalizando seu primeiro DVD, que será lançado até maio. O registro ao vivo, ainda sem nome, traz 15 faixas gravadas durante o show realizado na Sala Funarte Sidney Miller em março de 2005. Entre os bônus, o DVD traz depoimentos de velhos amigos do baiano, como o violeiro Chico Lobo - que convidou Xangai para participar de seu DVD, Viola popular brasileira (2005), também lançado pela Kuarup - e os parceiros Jatobá e Renato Teixeira, além de um raro registro em vídeo do menestrel Elomar, que dificilmente permite a gravação de sua imagem.

   - Estávamos cantando juntos um tema da ópera de Elomar, o Auto da catingueira, em um quarto de hotel em Belo Horizonte. Talvez seja uma das poucas imagens em vídeo feitas dele nos últimos 17, 18 anos. É quase um documento histórico - brinca Xangai, primo de Elomar, que pretende lançar um álbum de inéditas até o fim deste ano.

   O próprio presidente da Kuarup, Mário de Aratanha, foi à casa de Xangai, no município de Lauro de Freitas, região metropolitana de Salvador, para captar as imagens presentes no documentário.

   - No show do Rio eu dirigi as câmeras, mas na Bahia eu mesmo fiz as imagens, durante os três dias que passei lá. A tecnologia digital permite usar um equipamento menor, sem perda de qualidade - avalia Mário, para Xangai um misto de produtor e cineasta.

   O primeiro DVD do baiano é encarado por Mário de Aratanha como o ponto alto da relação profissional entre o selo e o artista, que data de 1983. Pouco tempo antes das filmagens, Xangai acertou o relançamento dos três álbuns que estavam fora de catálogo, além de intermediar nas negociações para que Elomar fizesse um acordo semelhante. Como resultado, a Kuarup lançou, de uma só vez, os discos antigos de Xangai e três raridades das discografia de seu primo: Na quadrada das águas perdidas (1979), Cartas catingueiras (1982) e Árias sertânicas (1991). Dois meses depois de os relançamentos chegarem às lojas, o selo já providencia outra tiragem dos discos, já que as mil unidades de cada CD produzidas inicialmente já estão esgotadas - número extremamente satisfatório para os padrões da Kuarup. Mas nem as boas vendas animam Xangai a relançar seu único álbum que permanece fora de catálogo, Acontecivento:

   - Este disco poderia ser extraordinário, mas não foi feito do jeito que eu queria. Na época, cedi às pressões da gravadora com medo de não conseguir fazer meu primeiro LP. Depois disso, decidi nunca mais gravar numa multinacional. Produzindo meus discos de modo independente, posso escolher o repertório e a forma de interpretá-lo. Eles que fiquem investindo nos clones dos clones - protesta.

   O mercado independente hoje também abriga alguns medalhões da MPB, como Chico Buarque, Maria Bethânia e Gal Costa, que preferiram deixar para trás as majors em que passaram as maiores partes de suas carreira e apostar em gravadoras de menor porte. Xangai, contudo, pagou o ônus do pioneirismo, ao enveredar por este caminho há quase três décadas.

   - Até hoje não ganhei dinheiro para viver com folga. Não estou livre de ter a luz cortada ou o telefone bloqueado. Mas, se pudesse, faria tudo novamente. Ainda mais com as facilidades tecnológicas de hoje, que permitem gravar um disco em casa.

   A limitação financeira também prejudica o artista baiano a viajar com seu espetáculo, embora Xangai tenha desenvolvido uma filosofia econômica para fazer suas turnês:

   - Quando tenho condições, viajo com banda, o que nem sempre acontece. Não me considero um grande violonista, mas toco de maneira muito pessoal, o que me desobriga de ter alguém para me acompanhar. Então vou só, com o violão do lado. E se não tiver violão, canto à capela mesmo.  

(© JB Online)


MÚSICA REGIONAL

Cantor e compositor baiano tem obra relançada; parceria com poetas em canções do Nordeste sertanejo é o destaque

CDs reúnem riqueza dos temas brasileiros de Xangai

SERGIO TORRES
DA SUCURSAL DO RIO

   Cantor e compositor dedicado há três décadas a um tipo de música de temática basicamente interiorana, o baiano Xangai tem agora relançados em edições caprichadas, pela gravadora Kuarup, três de seus trabalhos mais representativos, produzidos de maneira independente entre 1981 e 1991.

   "Qué qui Tu Tem Canário" (1981), "Eugenio Xangai Avelino" (1990) e "Dos Labutos" (1991) reúnem o universo ainda atual nas obras mais recentes do artista: muita coisa de Elomar, parcerias com poetas como Capinam e Salgado Maranhão e canções de contemporâneos como Juraildes da Cruz e Hélio Contreiras, que partilham com Xangai o apreço por uma forma de música aparentemente simples, mas riquíssima no resultado final.

   Como intérprete e autor, Xangai se notabilizou justamente por divulgar ritmos brasileiros e compositores de talento que não encontram espaço nas maiores emissoras de televisão, nas rádios e gravadoras.

   Aos 57 anos, radicado em Lauro de Freitas (município na região metropolitana de Salvador), Xangai mantém esse perfil nos shows que faz e nos programas de TV e rádio que apresenta -ambos chamados de "Brasileirança"-, na TV Educativa da Bahia (aos domingos, às 9h30) e na rádio FM Educadora da Bahia.

   "Eu só canto o que me invade. Eu sou exigente, sou um filtro. O que eu quero é mostrar, não importa como. Sou o porta-voz dessas pessoas que não estão tendo a oportunidade devida", disse o cantor baiano em entrevista telefônica à Folha.

Elomar

   Xangai festeja a volta dos discos ao mercado simultaneamente ao relançamento, também pela Kuarup, de três trabalhos importantes de seu mestre maior, seu conterrâneo Elomar Figueira Mello, 68 ("Nele, Beethoven e Camões formaram uma só pessoa", elogia): "Na Quadrada das Águas Perdidas" (1979), "Cartas Catingueiras" (1982) e "Árias Sertânicas" (1991). Agora, Xangai prepara um DVD, a ser lançado possivelmente em março.

   "Que qui Tu Tem Canário" e "Dos Labutos" já tinham sido lançados em CD, mas estavam há muito tempo fora de catálogo. "Eugenio Xangai Avelino" era inédito em formato digital.

   Nos três, Xangai destaca a preferência por arranjos que empregam instrumentos inusitados nos xotes, baiões, toadas e sambas rurais de seu repertório.

   "Não tenho nada contra os instrumentos, muito pelo contrário. Mas acho que a maioria das músicas tem guitarra, baixo, bateria. Eu faço com clarineta, violoncelo, violões, percussões", afirmou.

   O elenco que o acompanha nos discos relançados é requintado. Há o bandolim de Armandinho Macedo, os sopros de Paulo Moura, Paulo Sérgio Santos e Marcelo Bernardes, o cello de Jacques Morelembaum, o acordeon de Oswaldinho, a percussão de Djalma Corrêa e até a viola de dez cordas de Zé Ramalho e Almir Satter na faixa "Cantoria de Galo", a abertura do disco de 1981.

   Os CDs podem ser encomendados na Kuarup. No sítio da gravadora na internet (www.kuarup.com.br), cada um custa R$ 20, mais o frete.

(© Folha de S. Paulo)

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