Artista lança novo CD e tenta se reafirmar
após baixa vendagem e conflito no Rock in Rio
É hora da verdade para Carlinhos Brown, 38. Seu novo
CD, "Bahia do Mundo - Mito e Verdade", precisa varrer em sua passagem as vendas
nada industriais de "Omelete Man" (98) e as confusões armadas no Rock in Rio.
O artista baiano sobrevive de contradições: sua
gravadora já o achou "cabeça"; ele parece difícil para o público de axé
music, mas também sofre resistências na "elite". No Rio, causou revolta de
metaleiros fãs de Axl Rose. Na Bahia, sexta passada, recebeu socorro do sogro, Chico
Buarque -que pulou com ele uma versão samba-reggae biruta de "João e Maria"
(77)-, mas causou desconfiança numa platéia ainda assim obediente a seus comandos.
O que é mito e o que é verdade em Brown? "Aí,
cada um ache o seu", despista, no seu Candeal natal, autêntico líder comunitário
de origem pobre e muito espírito lutador. Leia trechos de entrevista.
Folha - Quem é seu ídolo musical?
Carlinhos Brown - (Pensa.) Por incrível que
pareça, é Mestre Pintado do Bongô, que nasceu em Aracaju e veio morar neste bairro do
Candeal. É de outra nação, da nação de Ketu -o Candeal é Angola. Me mostrou
improvisação com percussão, muito antes de eu conhecer Miles Davis. Com ele eu soube o
que era o Trio Mocotó e daí Jorge Ben. Ele tinha bandas do que se chama cuban jazz,
tocava nos cruzeiros que vinham do Caribe e paravam na costa baiana. O cuban jazz aproxima
muito a Bahia por causa da cultura iorubá. Cuba é iorubá, e a Bahia também.
A partir disso, comecei a gostar de Pérez Prado (artista cubano que foi o "rei do
mambo" a partir dos anos 40). Para mim, foi ele quem inspirou James Brown. Fiquei
louco com um cara chamado Joe Tex (soulman dos anos 50 nascido no sul dos EUA). Ele
conseguia ser mais musical nos arranjos que James Brown. A partir daí, fui olhando,
conhecendo coisas e cheguei ao pai do funk real, Sly Stone. Depois vieram os filhos,
Funkadelic, até chegar ao hip hop.
E eu conheci o Elvis negro, um amigo meu aqui do Candeal, chamado Jorginho. Por causa dele
conheci Elvis Presley, o mais latino dos norte-americanos. Talvez eu seja um Elvis Jobim,
um Elvis Jobim Porter, porque não adianta eu falar da canção mundial sem falar de Cole
Porter. Vi tudo na "Sessão da Tarde", Bing Crosby, Nat King Cole, Louis
Armstrong, Frank Sinatra, Sammy Davis Jr.. Parecia a jovem guarda deles.
Enquanto isso, aqui na Bahia toda a cultura americana levava a cultura baiana a criar
blocos carnavalescos com baterias africanas, os blocos de índios apache, chayenne,
sioux... Uma vez fui sair no Carnaval, ainda criança, acabei pisoteado. Um índio apache
me guardou do meio do povo e me ergueu do meio dos pisotões. Foi um ato de heroísmo.
Foi na rua que peguei o apelido de Brown, porque começava a me comportar com calças
bocas-de-sino, incentivado pelos Black Panthers muito mais que pela música. Sou fã de
James Brown, mas o Brown é mais por causa do (ativista negro de esquerda) H. Rap Brown.
Ele está preso agora, mas não é por ser renegado que vou cuspir no prato que comi.
Já o árabe vem muito de ter conhecido Nelson Maleiro, um cavaleiro de Bagdá que fazia
afoxé com índios. Ele usava sapatos de bico, tipo Aladim. Fui andando, fui vivendo a
vida e percebi que no Candeal o que não era africano era libanês pobre, pardo, judeu.
Somos o judeu e o árabe em paz, o Brasil já conseguiu a paz de Israel há muito tempo.
Aí o que eu descobri? Que os aboiadores que aqui viraram plantadores traziam um canto de
tanger gado que não tinha diferença nenhuma do canto árabe. Não é a intenção
parecer árabe, é natural, as culturas são próximas. A música esclarece que não
existe barreira nem distância entre os homens. A miscigenação vem matar as raças, mas
não matar no sentido duro. É matar para surgir a raça verdadeira, a única, que será a
cor nova.
Folha - Uma cor única não mataria identidades culturais?
Brown - A cultura não pertence a facções
étnicas. O branco fica menos branco, o negro fica menos negro, o branco e o negro ficam
mais índios, mais mongóis. A miscigenação vai demonstrar o desaparecimento do
preconceito. É como se todos os homens se conduzissem a um construtivismo de vida eterna.
Folha - Se acredita nisso, por que adotou um discurso
nacionalista contra os roqueiros do Rock in Rio?
Brown - Qual é o caso? O discurso dos meninos do
rock, dos Guns "N" Roses? Gosto muito mais da música que do discurso, que é
neonazista, antigay, racista. O cara pode estar até querendo despertar uma coisa
diferente, mas os fãs, não, preferem jogar garrafa. Poxa, estou no Brasil, na minha
casa, não aceito racismo. Sou negro, fui eu que tomei no lombo, por que vou aceitar? Não
estou falando que fui vítima de racismo. Fui vítima de discursos. De certa forma visto a
camisa da música brasileira, sim, porque ali eu tinha elementos do Brasil, músicas que o
Brasil já consagrou. Cara tinha que reclamar com sabedoria, pela saúde da música
brasileira.
Folha - Você se acha um pop star?
Brown - Não. Sou um "pop chão", um homem
que tenha veículo por todos os lugares onde andar. Sou o descompromisso hoje na música.
Me dou o luxo de cantar uma música que ninguém conhece no palco. Como renovar sem ouvir?
Que comunicação é essa? É preciso renovar, mas ninguém ouve. O artista tem de fazer
pensar, provocar reação.
Folha - Esse é um discurso contrário ao da axé music,
não?
Brown - Talvez seja a música que mais fez pensar. O
que nós fizemos com percussão Beethoven, Chopin e Rachmaninov não fizeram. É o
discurso prático. Encadeou movimentos sociais de que o Brasil não tem nem noção. Não
faço discurso de crítica ao governo, porque somos da prática. O discurso literário se
esvaziou.
Quando falo que não sou axé music, é porque faço parte de um movimento que originou a
axé music, que é paralela a ele. E quem mais acobertou o axé? O ser humano que não tem
acesso a livro, não lê jornal, vê só TV. O que vai se cobrar de um povo a que nem se
oferece educação direito? É fazer esse discurso alegre, ganhar dinheiro e investir na
comunidade. Esse é o caminho da arte e dos artistas no futuro. O novo artista é isso, o
pop star distante já era. O artista tem o dever de tentar transformar. Sou a tentativa.
Se não provocar o gosto não serve. Fica morto, não vira obra.
Folha - Por que suas letras, mesmo simples, parecem
complicadas?
Brown - Mas por quê? Não são, não. São tão
ligadas à cultura do Brasil, é sinal que a gente não conhece nosso país. Você sabe o
que é "xangó"? É um peixe que é assado ao sol, com água do mar, não
precisa tempero. No sertão isso com farinha é tão usado quanto o maior caviar que possa
existir.
Folha - Cantar "vê xangó em dona Preta" ajuda a
entender isso?
Brown - Você continua a não saber o que é xangó
porque não viveu. Se um dia alguém for estudar o Candeal, vai encontrar o xangó e vai
encontrar essa referência, isso se chama memória. Não sou eu, é a própria
simplicidade da vida que arremata, com sofisticação que nem eu domino. É plasticidade
musical que busco. O que quero dizer não significa nada. Não me considero poeta,
compositor, nada disso -talvez mais artista plástico que todas essas coisas.
Folha - Suas opiniões contra o hip hop não contradizem seu
discurso?
Brown - O hip hop brasileiro não influencia uma
pessoa a matar outra, chacina, tráfico. O Brasil tem uma linguagem própria, e essa
música não é a representatividade urbana brasileira. Não é. Não é. Eu sou a Bahia
do mundo, o Brasil do mundo, que aceita o mundo, mas não se deixa corromper nem ser
engolido por ele. Não tem graça parecer que estou em Nova York, prefiro ir a Nova York.
Minha música é brasileira, então é sem metralhadora.
Folha - Por seu próprio discurso, tenho que entender que a
música deles é tão brasileira quanto a sua.
Brown - Mas ninguém está dizendo que não é. Só
digo que é uma música extremamente influenciada... É Jobim que inspira os Racionais?
Não é. É a voz dos presos, da situação favelada. É fortíssimo, a realidade. Se essa
é a realidade que se quer, vamos para ela. Continuo na minha. Não bole ninguém na minha
vida, no Candeal não há tráfico, metralhadora. (Pedro Alexandre Sanches, Folha de São
Paulo)
| "Então você quer ser um rock'n'roll star?"
Um apanhado que se faça do discurso fogoso de
Carlinhos Brown o apanha como artista sob o signo da contradição. No ponto em que se
encontra hoje, é músico e falador de extrema expressividade que tem parcialmente
obstruídos os canais de comunicação, tanto com o grande público quanto com os ditos
formadores de opinião.
Contraditório, beneficia-se de ser extremamente
audacioso, encarando dificuldades, confusões e as próprias limitações de peito aberto,
rei do Candeal.
A instabilidade também o atrapalha. É por isso que
"Bahia do Mundo" (concebido como CD despretensioso que minimiza a aura de gênio
"fake" que se colara a ele) foi atropelado antes de nascer pelo discurso
moralista contra moralismos no Rock in Rio.
Não se pode por causa daquele desastre invalidar o
passo adiante que é "Bahia do Mundo - Mito e Verdade" (título tão indefinido
quanto o próprio artista). De bola mais baixa, Brown produz hoje momentos plenos de
melancolia, como em "Lagoinha" e "Vai Rolar". Se seu discurso
congregador de todas as coisas vale de fato, a alegria não precisa ser sempre a prova dos
nove, como reza o mito baiano, e aquelas faixas o provam.
Da alegria, ele extrai musicalidade sem parar:
acontece na marqueteira "Crendice" (produção de Memê, mago da eletrônica bem
padronizada -e outro ponto de contradição, já que por Brown a eletrônica não seria
brasileira), na sertaneja "Cavalo da Simpatia", nas melódicas e quase orientais
"Cearabe" e "Shalom".
Clichês vão se seguindo. "Trabalhador de
Carnaval" dá à Bahia o que a Bahia quer em fevereiro (março... abril...), a letra
evocando talvez sem querer o "Trem das Onze" de Adoniran Barbosa; "Vilões
Satisfeitos" embola letra confusa e lembrança do pop Paralamas "Lanterna dos
Afogados" (89); "Mil Verões" parece Skank. A alegria é a prova dos nove.
Quem é Carlinhos Marrom, afinal? Difícil dizer, mas
"Mess in the Freeway" (em inglês sofrível à moda do ídolo Jorge Ben) e a
divertida "Horário de Verão" fazem do moço um Bob Marley brasileiro, simples
assim. Pode chorar que o rap não é brasileiro, mas ele próprio é aí mais jamaicano
(ou árabe à revelia, na comovente "Shalom") que baiano -o que é ótimo, se
vale seu discurso contra a xenofobia. A cobra da contradição morde o rabo, e esse é
Brown.
Das contradições todas sobra o cortante
personalismo, que, se em "Bahia do Mundo" parece equalizado, nos festivais de
verão tem estado à toda -e lhe tira a voz, por briga no Rio ou rouquidão em Salvador.
Lá da Bahia, sexta passada, provocou os inimigos cariocas, fazendo rock pesado com big
band de soul e com "Mosca na Sopa" (73), do conterrâneo desgarrado Raul Seixas.
Faz lembrar versos dos roqueiros Byrds, que em 67 ironizavam: "Então você quer ser
um astro do rock'n'roll?". Metáfora da crise do pop star, diz que prefere o
"pop chão" agindo como legítimo "rock'n'roll star". Talvez por
ciúmes de Axl Rose, mas vivo, muito vivo e sentindo o reggae balançar na barriga.
(PEDRO ALEXANDRE SANCHES)
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| Gravadora diz que interferiu no novo CD
Vindo de uma curva de 135 mil discos vendidos no Brasil com
"Alfagamabetizado" (96) e só 30 mil com "Omelete Man" (98), Carlinhos
Brown desperta hoje atenção que sua gravadora EMI não procura esconder.
No exterior -Brown é artista distribuído no mundo
todo pelo complexo EMI/Virgin-, a montanha-russa é comparável. "O primeiro disco
vendeu 80 mil cópias lá fora. "Omelete Man" não vendeu muito, umas 5.000
cópias", diz o diretor de marketing da gravadora, Hari Chandra.
"Estamos tendo muito cuidado com ele. Ficamos muito mais próximos na escolha de
repertório, gravação, escolha da música de trabalho. O disco ficou pronto no final do
ano, resolvemos adiar o lançamento porque o Rock in Rio estava atraindo todas as
atenções", afirma.
Ele continua: "Agora não estamos lançando
nenhum outro produto, nossa equipe de vendas só tem esse disco. Acreditamos que
conseguiremos repetir o sucesso do primeiro disco. No mínimo, queremos mais um disco de
ouro (100 mil cópias), mas queremos chegar a 250 mil".
Brown confirma a vigilância, mas diz não a
interpretar como interferência. No entanto, no "manifesto do timbalismo" que
acompanha o material promocional do CD, dá a entender que tem estado sujeito a "todo
tipo de pressão e crítica".
Ele explica: "Quero vender disco, fazer show. Um
artista como eu sofre pressão de ter de ir para o show, tocar hits, "você não foi
contratado porque não fez Xuxa ou três Faustões", o pessoal só quer quem fez
"Xuxa Park'".
Sobre a pressão por vendagem: "Se "Omelete
Man" vendeu 30 mil discos, acho que é disco para caramba. A gravadora não acha, mas
é. Não estou fazendo uma obra para ser consumida imediatamente, mas para ser discutida.
Tenho tanto interesse em obra que talvez às vezes termine até não vivendo".
Chandra procura explicações para os altos e baixos:
"Não é definível a razão. Não culpamos o artista e muito menos nos culpamos. Um
artista não se faz com um disco, e o valor de Brown é inquestionável".
Houve rejeição ao artista? "Não sei se foi
rejeição, acho que o público nem chegou a conhecer o disco. Eram outras pessoas
envolvidas, a gravadora estava mudando. Não conseguimos emplacar uma música no Brasil
inteiro", diz, admitindo indiretamente a responsabilidade da EMI.
Mais adiante, admite também a responsabilidade do
artista: ""Omelete Man" era um disco mais cabeça. No terceiro tentamos ter
mais cuidado, escolher uma música de trabalho que fizesse esse "crossover'".
Brown reage à definição de "Omelete Man"
como "disco cabeça": "É o álbum mais popular que já fiz na vida. Não
sei, acho que é a forma de eu vestir as coisas. A simplicidade com que falo é tão
simples que nego não está acostumado".
Emenda com planos para o futuro: "Este CD de
agora fiz com a intenção de fazer as pessoas serem felizes, até de ser acessível
também. Tenho um contrato de quatro discos com a EMI, quando terminar talvez queira dar
um tempo, repensar sobre música".
(PEDRO ALEXANDRE SANCHES) |