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12/03/2001

 sertão vai virar cinema

O Pagador de Promessas

   Safra recente de filmes redescobre o Nordeste como cenário de histórias que oferecem visões modernas das tradições regionais

   Desde sempre ficou combinado assim: São Paulo é considerado o centro econômico brasileiro e o Rio de Janeiro o centro cultural e turístico do país. Mas é no Nordeste que, pelo menos no cinema nacional, o brasileiro se sente mais brasileiro. A afirmação se confirma e se renova a cada novo ciclo cinematográfico, quando a região assume o papel da paisagem mais disputada pelos cineastas locais. E até com um certo sucesso de popularidade. Foi para lá que Walter Salles levou o seu premiado Central do Brasil e está voltando com o ainda inédito Abril despedaçado. Foi ali, no meio do sertão que ganhou visibilidade internacional na época do Cinema Novo, que surgiram dois campeões de bilheteria do ano passado: Eu tu eles (700 mil espectadores), de Andrucha Waddington, e O auto da Compadecida (2,12 milhões de pagantes), de Gel Arraes. E é para lá que outro punhado de diretores está mirando suas câmeras este ano, como Cacá Diegues, Sérgio Rezende, Aloísio Abranches, Leilany Fernandes, David França Mendes e Vicente Amorim.

   ''O brasileiro se identifica com o país do Rio para cima'', faz coro Sérgio Rezende, que até meados do ano começa a rodar Os piadistas, sobre um velho comediante paulista (a ser interpretado por Juca de Oliveira) que atravessa os estados do Maranhão, Ceará, Pernambuco e Paraíba atrás de um parceiro perfeito. ''O Nordeste sempre rendeu boas histórias e completamente diferentes umas das outras, desde O pagador de promessas (1963) até Baile perfumado (1997). O que tem mudado é a abordagem do diretor. O apelo da região está na força cultural nordestina'', avalia o cineasta, que rodou Doida demais, Lamarca e Guerra de Canudos por aquelas paragens.

   A teoria de Rezende faz sentido dentro do sistema de espasmos de produção que vive a história do cinema nacional. Se durante o Cinema Novo a figura do nordestino tinha um peso político-social muito forte, em filmes como Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, no cinema de hoje ele costuma assumir um papel menos militante. ''O que estamos vendo na produção recente é um Nordeste menos folclórico ou menos preocupado com a realidade social. O Eu tu eles, por exemplo, é um filme totalmente nordestino, mas o que ganha destaque é o drama pessoal daquela mulher e seus três maridos'', avalia Renata de Almeida, que vai ajudar o diretor Cacá Diegues a realizar Deus é brasileiro, um road movie inspirado no romance de João Ubaldo Ribeiro, Viva o povo brasileiro, que começa no litoral de Pernambuco e acaba em Tocantins, no Centro-Oeste brasileiro. É um Bye, bye, Brasil (também de Cacá, um produto típico dos politizados anos 70) para o ano 2000, fantasioso e brincalhão. ''Acho que estamos assistindo a um renascimento da região. Durante os anos 80, o cinema brasileiro esteve muito urbano, o foco estava nas grandes cidades. Esse enfoque começou a mudar a partir dos anos 90. O interessante da nova safra é que até os filmes de realizadores nordestinos, como Baile perfumado (de Lírio Ferreira e Paulo Caldas), sobre Lampião, oferecem um ponto de vista mais leve, mais moderno, da cultura local.''

   Em certos casos, as características antropológicas da região é que justificam o cenário de títulos como As três Marias, que Aloísio Abranches (de Um copo de cólera) começa a filmar no início de abril em Pesqueira, em Pernambuco; e Maria Moura, de Leilany Fernandes, também ambientado em território pernambucano. ''Embora o argumento tenha sido escrito por dois roteiristas pernambucanos e inspirados pela estrutura do cordel, a trama de As três Marias poderia se passar em qualquer outro lugar, até mesmo na Grécia, porque é uma tragédia grega'', acredita Aloísio, que promete um Nordeste atípico, nada folclorizado. Para isso, o diretor até eliminou o tom de cordel da primeira versão do roteiro. ''A escolha do sertão como cenário foi mais uma questão de comportamento, porque é uma história sobre rivalidades entre famílias e vinganças, elementos típicos da cultura social daquela área'', diz o diretor.

   O argumento de Aloísio também se aplica a Maria Moura. ''O meu filme, que se passa em 1840, fala de conflitos de terra, de disputas a bala. Fala sobre uma cultura siciliana que ainda estava presente na forma de relacionamento das pessoas da região, e Pernambuco, naquela época, era uma referência para os outros estados, porque era o mais antigo e tradicional do Nordeste'', conta Leilany, que enxerga em seus contemporâneos uma certa apolitização cinematográfica. ''Os novos filmes sobre o Nordeste, em geral, são feitos por uma geração de diretores que olha o mundo de uma forma mais globalizada'', avisa a cineasta.

   Mas nem o Nordeste globalizado escapou aos cineastas antenados. Ele estará em cartaz em 2000 Nordestes, de Vicente Amorim e David França Mendes, documentário sobre as expectativas do nordestino nesta virada de milênio que fez seus autores percorrer quatro mil quilômetros de estrada e cinco estados. ''Nossa idéia é mostrar como a cultura de massa influencia a cultura regional'', explica Amorim. ''É um filme mais sobre pessoas do que sobre geografia'', completa Mendes que, junto com Amorim, colheu dezenas de depoimentos curiosos pelo caminho. O sertão continua sendo um mar de idéias. (Carlos Heli de Almeida, Jornal do Brasil)

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