Notícias
 A lucidez na obra de Bispo do Rosário

18/04/2003

 

 

 

O ator baiano João Miguel: espetáculo foi moldado a partir de contato com internos de hospício

 

Solo de João Miguel aborda a lógica da criação do homem diagnosticado como esquizofrênico

BETH NÉSPOLI

  Interpretado pelo ator baiano João Miguel e dirigido pelo cineasta Edgard Navarro (leia abaixo) o solo Bispo, que aborda a trajetória de Artur Bispo do Rosário, estréia amanhã no Sesc Belenzinho. O espetáculo chega a São Paulo com muitas críticas elogiosas, colhidas em cidades como Salvador, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Recife.

   Ao que tudo indica, os elogios são merecidos. Antes de mais nada, o solo é fruto de um longo processo de maturação, iniciado em 1996. Chama atenção ainda a preocupação do ator em desviar-se do perigo do 'delírio' sem sentido, mero canal para exibição de recursos interpretativos. "Desde o primeiro momento, eu e Edgard tínhamos em mente que o foco do nosso interesse não era a loucura de Bispo, mas a lucidez de suas palavras, a possível lógica interna de sua criação."

   Embora o espetáculo não se proponha a ser uma biografia de Bispo, vale relembrar sua história. Nascido em Jarapatura (SE), em 1911, ingressou na Marinha, em Salvador, em 1928, onde permaneceu por cinco anos. Foi lutador de boxe, lavador de bondes, borracheiro e empregado doméstico, já no Rio de Janeiro. Em 1938 teve uma visão: Jesus apareceu-lhe cercado por sete anjos azuis. Vagou pelas ruas do Rio até ser internado na Colônia Juliano Moreira, onde foi diagnosticado como esquizofrênico-paranóide. Negro, alto, forte, agressivo, Bispo acabou preso numa solitária do hospício. Ali começou a ouvir as vozes que ordenavam que ele reconstruísse o universo. Foram 50 anos ininterruptos de internação, até sua morte, em 1989, de broncopneumonia, aos 76 anos. Desfiando trapos e uniformes, criou o que hoje é chamada 'sua obra' prestigiada em exposições nacionais e internacionais.

   "Bispo negava que suas criações fossem arte. Eram sua salvação. Estava preparando sua passagem. Seu famoso manto - única de suas criações presentes no espetáculo - foi criado para ser usado diante de Deus", ressalta Miguel.

   "Quando mergulhei nesse processo, estava também cheio de perguntas ligadas à minha criação. Por que, afinal, subir ao palco, para dizer o quê?"

   As palavras ditas em cena são de Bispo. A primeira fonte de pesquisa do ator foi o livro de Luciana Hidalgo, O Senhor do Labirinto (Editora Rocco).

   Depois vieram várias outras, entre elas o filme de Hugo Denizart O Prisioneiro da Passagem. O diretor, com quem Miguel já havia trabalhado no filme O Papel das Flores, foi parceiro na criação desde o primeiro momento.

   Mas embora assine direção e texto, Miguel é o responsável por concepção e dramaturgia. "Edgard teve a generosidade de ser meu cúmplice. Permitia que eu criasse e depois vinha com seu olhar sensível, o indispensável 'olhar do outro', dando toques, sugerindo acertos fundamentais."

   Juntos, fizeram visitas ao Hospital Juliano Moreira em Salvador. "Foi no auditório desse hospital que fizemos uma leitura do primeiro tratamento do texto. Comecei então a fazer ensaios não convencionais, dentro do hospício.

   Fazia num corredor, entre as alas feminina e masculina, tendo como elemento de cena apenas um lençol. Nessas experiências, cara a cara com internos, o espetáculo começou a ser moldado."

   Quem for ao Sesc Belenzinho não deve esperar uma biografia linear de Bispo.

   "A idéia é propiciar o contato com as palavras de um homem que articulou o próprio mundo sem jamais abrir mão da convicção de que criava tudo para o dia do juízo final. Entrar em contato com fragmentos desse mundo. Seria pretensioso dizer que aquele é Bispo do Rosário. Muitos aspectos de sua personalidade ainda estão por ser descobertos."

   João Miguel tem 33 anos de idade e quase 20 labutando no teatro. Morou na Bahia, no Rio e na Paraíba. Formou-se como ator na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio, em 1989. No mesmo ano começou a trabalhar com Luis Carlos Vasconcellos e sob sua orientação criou o palhaço Magal. Na Bahia, trabalhou sob a direção de João Falcão no espetáculo A Ver Estrelas.

(© O Estado de S. Paulo)

Diretor pautou sua carreira na ousadia

Edgard Navarro, também co-autor do monólogo, prepara seu primeiro longa, 'Eu me Lembro'

MARIA DO ROSÁRIO CAETANO
Especial para o Estado

  Edgard Navarro, co-autor e co-diretor do monólogo Bispo é, sem dúvida, o mais inquieto e ousado cineasta baiano desde Glauber Rocha (1939-1981). Em breve o País conhecerá seu primeiro longa-metragem, Eu me Lembro, uma espécie de "Amarcord soteropolitano". Ao contrário de Glauber, que conseguiu, em apenas 42 anos de vida, realizar dez longas, Navarro, de 53 anos (fará 54 em outubro), só conseguiu fazer um e meio. Um é Eu me Lembro, que ele está finalizando em Salvador. O meio é Superoutro, um dos cult movies de Caetano Veloso e Carlão Reichenbach.

   Caetano exaltou Superoutro, média-metragem com cara de longa, no samba-enredo Cinema Novo, composto em parceria com Gilberto Gil e gravado no disco Tropicália 2. Carlão ficou tão siderado pelo filme -- vencedor da mostra 16 milímetros do Festival de Gramado/89 - que escalou seu protagonista, o ator baiano Bertrand Duarte, para o principal papel de Alma Corsária.

   Navarro, magro como um faquir, tem tudo a ver com os delírios criativos de Artur Bispo do Rosário e de outros visionários. Nutre irresistível fascínio pelos transgressores. Formado em engenharia civil, entregou o diploma de presente ao pai e foi ser gauche na vida. Mais que gauche, um rebelde empedernido. Nos anos 70, teve experiências com droga, viajou para a Bolívia no trem da morte, passou por Arembepe. Experimentou de tudo. "Só não pirei de vez porque minha mulher, que substituiu a mãe que eu perdi aos 12 anos, me segurou. Ela era psicóloga e me levou para dentro da obra do Freud", relembra.

   O engenheiro desgarrado iniciou-se no cinema pelo Super-8 com Alice no País das Mil Novilhas. Era já homem feito (27 anos). O segundo filme - O Rei do Cagaço (sic) - foi sua sátira escatológica ao gênero Nordestern. Citaria essa aventura superoitista em Superoutro. Ainda na bitola amadora realizou Exposed, Lin e Katazan e Na Bahia Ninguém Fica em Pé. Numa das edições da Jornada de Cinema da Bahia, o endiabrado Navarro entediou-se com politizadíssimo debate cinematográfico, daqueles corriqueiros nos anos 70, e tirou a roupa no meio da platéia. Causou escândalo. O cineasta, hoje mais zen que provocador, reconhece que era muito exibicionista.

   Navarro estreou no 35 mm com o curta Porta de Fogo (ficção glauberiana e visionária sobre o guerrilheiro Lamarca). Ganhou o Troféu Candango de melhor curta no Festival de Brasília/84. Dois anos depois, refilmou, em 35 mm, o Super-8 Lin e Katazan. Mais uma vez foi premiado no festival brasiliense.

   Em 1989, o cineasta deu seu passo mais ousado, ao realizar seu filme mais maduro e contundente. Ao longo de 45 minutos, em 16 mm, imprimiu a história de um louco baiano (Bertrand Duarte), que queria voar como o Super-Homem.

   Para Navarro, Superoutro é um louco de rua, espécie de d. Quixote do Terceiro Mundo, que tenta se libertar da miséria através de sua alucinada imaginação. Tudo a ver com Artur Bispo do Rosário.

   O diretor baiano, que estourou com Jorge Furtado (que ganhou 11 prêmios no mesmo Fest Gramado, com Ilha das Flores), não conseguiu seqüenciar sua carreira. Vieram os anos Collor, os mecanismos de produção foram desmontados e ele perdeu 12 anos de vida cinematográfica. Ao longo dos anos 90, só dirigiu um videoclipe (A Voz do Brasil), um documentário (Talento demais) e uma ficção (O Papel das Flores). Todos no suporte vídeo. Eu me Lembro marcará a volta de Navarro ao celulóide. E ele tem, prontinhos, mais quatro belos roteiros (Eu Pecador, O Homem Que Dormia, Conspiração dos Alfaiates, este sobre a revolta que sacudiu a Bahia, no século 18, e Roma Negra).

   Eu me Lembro, que tem ingredientes autobiográficos, inventaria os grandes movimentos que mudaram a face do País de meados da década de 50 até a década de 70, a partir de Salvador e dos olhos de Guiga, o protagonista. O garoto cresce movido por culpa católica. Sexo e Deus são tabus. A morte da mãe, quando ele era pré-adolescente, o marcará profundamente. Jovem, nutrirá raiva muda pelo pai. Um dia, esse sentimento explodirá em episódio dramático. A literatura e o cinema lhe darão acesso ao mundo dos poetas e visionários, tendo a ditadura militar, a universidade, novas experiências de vida, quando "tudo explode colorido no sol dos cinco sentidos", a guerrilha urbana como pano de fundo.

(© O Estado de S. Paulo)


Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind