Aclamados por antecipação, o produtor e
seu grupo, a Orchestra Santa Massa, lançam o álbum Contraditório?
Marco Antonio Barbosa
Recife não pára de enviar ao mundo
sucessivas "novidades" para a música pop brasileira, desde o advento do
manguebeat - que afinal já fez dez anos desde sua gênese. Entretanto, a mais aclamada
revelação da atual geração do mangue (a terceira ou a quarta?) não é exatamente
novidade, e nem sequer nasceu em Pernambuco. Falamos do DJ Dolores, que, amparado em sua
Orchestra Santa Massa, tornou-se - ao longo de 2001 e durante o primeiro semestre do ano -
o grande hype da nova música nordestina. A gradual ascenção do produtor e
músico foi coroada há pouco, com o aguardado lançamento de Contraditório?,
segundo álbum do coletivo radicado no Recife.
O disco, lançado pela recifense Candeeiro Records e distribuído pela Trama,
já esgotou sua tiragem inicial (três mil CDs). O que já era esperado, diante da
expectativa que cercou o lançamento e o atraso de vários meses entre o término da
gravação e a chegada às lojas. "(O CD) demorou a sair porque eu fiquei muito tempo
pensando em como fazer pra atingir um maior número de pessoas. Era importante para mim
fazer uma promoção boa, ter uma boa distribuição e lançamento também no mercado
externo", narrou Hélder Aragão - o Dolores - ao Cliquemusic. Ele acrescenta:
"O (selo) Candeeiro foi a solução mais interessante para nós. Depois que
participamos pela primeira vez do Abril Pro Rock (em 2000) chegamos a ter propostas de uma
gravadora grande, mas as condições não eram legais."
"Na verdade era para ter saído em setembro do ano passado, junto com os
shows do Free Jazz. O projeto gráfico foi feito às pressas - em apenas três dias - para
correr com o lançamento, mas acabou não dando tempo", explica o produtor. Foi
justamente o par de apresentações que o DJ e a Orchestra fizeram no Free Jazz Festival
em 2001 o ponto inicial do bochicho em torno de Dolores nos meios de comunicação
e entre os "antenados" do Sudeste. O grupo foi o primeiro artista brasileiro na
história do evento a se apresentar no Main Stage do festival, arrebatando elogios
rasgados com sua fusão de elementos humanos e digitais, misturando ritmos e instrumentos
regionais com referências à moderna electronica. "Não se trata de mistura,
e sim de um encontro de elementos", põe ordem Dolores. "O tom nordestino
é inevitável, mas a eletrônica também está na raiz de tudo. No Recife há um encontro
espontâneo de várias tendências, as coisas não são muito segmentadas."
Contraditório? prova isso mixando, sem deixar as costuras à mostra,
elementos (aparentemente) díspares como rabeca e bateria eletrônica, scratches
com tambores de maracatu, drum'n'bass e levadas de coco, às vezes tudo em uma só faixa.
A própria formação da Santa Massa reflete esse método inusitado de trabalho. Há um
rabequeiro (Mestre Salú), uma vocalista/percussionista (Isaar França, que não esconde
sua escola bem agreste de canto), um DJ (KSB), um percussionista (Mr.Jam) e um
guitarrista (Fábio Trummer). Além do próprio Hélder, disparando samplers,
sintetizadores e vitrola. "Rola um certo espanto na primeira vez em que as pessoas
nos ouvem, especialmente ao vivo. Mas é sempre apenas no começo. Depois neguinho cai na
gandaia", reconhece Dolores.
O fato é que, tocando o repertório de Contraditório?, a Santa Massa
saiu do Free Jazz taxada de revelação do evento, caiu na boca de artistas influentes
(como Marisa Monte, Paulo Miklos e Naná Vasconcellos), fez shows pelo eixo Sul-Sudeste e
foi parar (em maio) na Europa, tocando na França, Portugal e Bélgica. Até o jornal
francês Le Monde elogiou. "O público é sempre receptivo. Sinto que,
especialmente aqui pelo Brasil, as pessoas se surpreendem mais com o acento nordestino da
música. É como se fosse uma descoberta", diz Dolores.
Nada mal para um músico que começou oficialmente a carreira em 1997,
assinando a trilha sonora do curta-metragem Enjaulado. Até então, Hélder -
sergipano nascido na pequena cidade de Propriá - acompanhava a cena manguebeat como
artista gráfico (procure seu nome em fichas técnicas de discos como Samba Esquema
Noise, do mundo livre S/A, ou Mestre Ambrósio, dos próprios). Participações
em coletâneas como Baião de Viramundo (tributo a Luiz Gonzaga) e Caipiríssima
foram apurando a sonoridade de Dolores. Mas foi a formação da Santa Massa que formatou
de vez o som do DJ.
"Tudo começou com a trilha da (peça teatral) A Máquina,
gravada em 2000 com o pessoal que viria a formar a Santa Massa. Fixei-me nessas cinco
pessoas depois de passar por várias formações", lembra Dolores. Para afinar o
escrete do grupo, não foi fácil. "É difícil encontrar músicos que topem tocar
com eletrônico aqui no Recife", diz o músico. "Ao mesmo tempo acabou ficando
uma formação muito interessante, juntando referências que se casaram muito bem. Por
exemplo, Salú foi o último a entrar na banda. Ele acabou, junto a mim, virando o
principal compositor da banda. E aparentemente estamos em dois opostos - ele com a rabeca,
um instrumento que remonta à Idade Média, eu com todos esses recursos
eletrônicos." Com reportagem de Mônica Loureiro
(© CliqueMusic.com.br)
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