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03/07/2001

Para traduzir Fagner

Raimundo Fagner

Luciano Almeida Filho
da Redação

Ele andava afastado das composições. O encontro com Zeca Baleiro jogou lenha na chama de autor do cearense Raimundo Fagner que lança o novo disco recuperando velhos parceiros e apresentando novos. O CD Fagner acaba de chegar às lojas. Confira trechos no site O POVO On Line.

   Raimundo Fagner está em fase de lua de mel. Seu retorno à Sony Music foi coroado com a venda de 500 mil cópias do CD duplo ao vivo, gravado no Centro Dragão do Mar, ano passado. A Sony vem a ser a antiga CBS onde gravou os mais relevantes trabalhos de seus 28 anos de carreira, deixando no ar uma tendência ao artista cearense voltar aos bons tempos - como adorariam seus fãs mais antigos. Agora, ele coloca nas lojas seu primeiro álbum de estúdio sob novo contrato, o CD Fagner.

   O disco marca também seu retorno às composições, amparados por antigos e novos parceiros. Entre os antigos estão o inseparável Fausto Nilo, e mais Abel Silva e Capinam. Mas o destaque vai para a safra de composições surgidas do encontro com o novo amigo e parceiro, o maranhense Zeca Baleiro. "Já algum tempo vinha curtindo seu trabalho. Então eu o encontrei em Fortaleza e batemos um papo numa noite que acabou gerando várias músicas'', adiantou Fagner à reportagem de O POVO, por telefone, direto do Rio de Janeiro.

   Os primeiros frutos desta safra com Zeca Baleiro estão no CD. São eles "A Tua Boca", onde também está Capinam, "Tempestade'' e o forró "Outra Era". Outras devem começar a aparecer em discos de outros intérpretes. O encontro com Zeca Baleiro foi fundamental para injetar sangue novo e trazer Fagner de volta às composições. Zeca e Fagner fazem dueto em "A Tua Boca''. "Sempre tive este diálogo com os artistas do Piauí e Maranhão. O Brandão, os irmãos Clodo, Climério e Clésio, o próprio Gullar (o poeta Ferreira Gullar)'', lembra-se. Além das três incluídas no CD, a parceria continua firme e os próximos frutos deverão aparecer nos discos de outros intérpretes, e do próprio Zeca.

   Cazuza é outro parceiro "novo'' na discografia de Fagner. "Eu tinha esquecido desta música. Tem uma história muito curiosa porque o primeiro emprego do Cazuza foi ser meu divulgador, colocado pelo pai dele, o João Araújo. Isso nos anos 70. A gente se reencontrou nos anos 80, ele já doente, foi meu vizinho aqui no Rio e a gente se encontrava e trocamos algumas letras e músicas. Descobri esta numa fita deste tempo''. A revelação de Fagner serve como apresentação do blues "Olhar matreiro''.

   Além das novas parcerias, Fagner resolveu regravar "Feliz'', do falecido amigo Gonzaguinha. "Quando eu cheguei no estúdio e falei pro maestro Jota Moraes, que foi o maestro dele, que queria regravar esta música. Era de 30 de abril e estava encerrando o disco. Ele me olhou e disse: `hoje está fazendo 10 anos da morte dele'. Foi pura coincidência. Eu não tinha ligado uma coisa na outra, não tinha lido jornais nem nada. Simplesmente, acordei com esta vontade'', declarou.

   Além das novas parcerias que impulsionam o novo CD, o processo de produção também incluiu uma notinha na imprensa. "Só que o Boechat (o jornalista Ricardo Boechat, ex-colunista do jornal O Globo) errou. Eu estava procurando novos autores, gente que não muito conhecida. Mas ele colocou no jornal que eu estava procurando novos parceiros. Então eu recebi muita coisa de poesia. Dá pra fazer uns 10 discos''.

   Das centenas de fitas e CDRs recebidos, Fagner pinçou duas faixas que abrem o CD: "Muito amor'', de São Beto, e "Certeza'', de Domervil. "Não são compositores de todo desconhecidos. Um é do Rio e o outro é lá do Pernambuco. Já foram gravados mas nunca tiveram um grande sucesso", revela Fagner. "O fato dessas músicas abrirem juntas o CD não foi para dar visão a eles. Eu quis que o disco começasse mais calmo e fosse crescendo para encerrar em alto astral com os forrós. Só isso", apontou o artista que também assina a produção do disco.

   Fagner - Mais novo CD do cantor e compositor cearense Raimundo Fagner. Produção: Raimundo Fagner. Lançamento Sony Music. 13 faixas. Encarte com letras. Preço médio: R$ 26,00. À venda nas principais lojas da cidade.

Para todos os gostos

   Qual fase da carreira de Fagner você prefere? O cantor romântico rasgado, o forrozeiro seguidor de Luiz Gonzaga, o ibérico dos tempos de Traduzir-se, o mouro-nordestino expoente da geração Pessoal do Ceará... Todas faces/fases de um mesmo artista que foi se camuflando com o tempo de acordo com as cores do mercado fonográfico nacional. O novo CD, Fagner, atende aos fãs de todos estes `Fagners'.

   Este 26° álbum da carreira de Fagner traz músicas para todos os gostos. Para quem é saudosista dos bons discos dos anos 70, deve ficar satisfeito com "Tempestade'', por exemplo. Para aqueles que já preferem Fagner fazendo a linha romântica, que garantiu altos índices de popularidade para o cearense nos anos 80, tem "Muito amor'' e "Certeza''. Numa linha mais convencional da MPB, pode ficar com a regravação de "Feliz'', de Gonzaguinha. Numa tendência latino-americana tem "Puedo'' (cantada em espanhol mesmo), e mais ibérico rola o fado "Cor invisível''. O disco encerra com dois forrós bem azeitados: "Eu e tu'' e "Outra Era'', caindo como uma luva para a onda do 'forró universitário'.

   Eclético? Sim. Mas principalmente político. No sentido de tentar agradar a todas as facetas do seu 'eleitorado', cativado nesses 28 anos de carreira. Coerente com a opção do artista pelo mercado, em detrimento da construção de uma obra artisticamente relevante. Aliás, esta vem sendo a tônica de seus últimos trabalhos, desde que sua opção pelo popular não surtiu mais efeitos na parada musical - no início dos anos 90.

   O resultado final acaba sendo a falta de consistência entre os altos e baixos que o CD Fagner apresenta. Uma mistura de tão forma costurada que até algumas boas composições soam perdidas, deslocadas pela falta de foco do trabalho, quando não embotadas por arranjos pouco inventivos, previsíveis. O Fagner que arriscava, inventava, provocava - musicalmente e esteticamente. Esse Fagner os fãs provavelmente nunca mais terão.(LAF) (O Povo)

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