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A estética do cangaço

10/06/2008

Benjamin Abrahão
FOTO

Cangaceiros: sentada, Maria Bonita; ao centro, Lampião


Historiadora vê nas fotos de cangaceiros feitas por Benjamin Abrahão e outros a gênese da manipulação da mídia por criminosos

No livro de fotos "Cangaceiros", historiadora da arte relaciona estética e estratégias do bando de Lampião por meio de imagens feitas nos anos 30 por mascate libanês


EDUARDO SIMÕES
DA REPORTAGEM LOCAL

A literatura de cordel e o cinema novo heroificaram o cangaço e seus líderes mais notórios, Lampião e Corisco. Bandidos sangüinários, eles souberam usar, antes das letras e do celulóide, uma outra mídia para se autopromover e intimidar. Nos anos 30, Lampião deixou que o mascate libanês Benjamin Abrahão fotografasse a si e a seu bando, uma história já contada pelos cineastas Paulo Caldas e Lírio Ferreira no longa "Baile Perfumado" (1997).

Aqueles registros de corpos paramentados para ação ou de cabeças cortadas e exibidas como numa feira de horrores reaparecem agora reunidos no livro "Cangaceiros", que a editora Terceiro Nome acaba de lançar. As fotos foram coletadas pela historiadora da arte Élise Jasmin, 39, francesa, para uma tese de doutorado na Sorbonne, em Paris, sobre a construção do mito Lampião.

Além dos retratos de Abrahão, o livro traz registros de outros fotógrafos, recolhidos em São Paulo, Rio, Recife, Fortaleza, Aracaju e Maceió, imagens na fronteira entre o fotojornalismo e a propaganda. Ao longo das 18 páginas de seu texto de apresentação, Jasmin fala da importância estética e estratégica da fotografia no cangaço.

"Com as fotos de Abrahão surge a imagem do cangaceiro por excelência. A partir dos anos 30, Lampião se tornou singular: cuidou de sua aparência e de seu grupo, fez uma encenação em torno de sua pessoa e atividade", diz Jasmin à Folha. "As fotos permitem ver esta mudança de estatuto da imagem entre os cangaceiros."

Uso da imagem

Jasmin conta que Abrahão permitiu que os cangaceiros fizessem ora poses bem estereotipadas, ora se dessem ao "luxo" de aparecer como burgueses ou heróis de cinema. Lampião queria, com os registros, mostrar a coesão do grupo e lançar ao mundo -especialmente a seus perseguidores- uma imagem de dignidade e uma postura de desafio.

A historiadora vê na "clandestinidade exibida" dos cangaceiros uma espécie de gênese da manipulação da mídia, por parte de grupos criminosos. "Estas imagens dos bandidos no auge de sua glória e poder, ao lado das fotos com o jogo cênico de suas mortes, fazem parte desta espetacularização da violência que encontramos nas sociedades modernas. É um fenômeno que vemos se desenvolver especialmente nas grandes cidades atingidas pelo crime organizado. Lampião e seu grupo foram os primeiros a se apropriar deste modo de comunicação, a instrumentalizá-lo, para desafiar seus adversários, impor seu poder e mostrar que seu sistema de valores, a vida que levavam, tinha um sentido para eles."

Jasmin destaca ainda que as fotos das cabeças cortadas dos cangaceiros são também muito importantes nesta iconografia, pois representam uma resposta violenta, na mesma moeda midiática, às provocações de Lampião. E cita a de Lauro Cabral, que apresenta Lampião em Juazeiro, como "esteticamente bela" e mais importante historicamente, pois marca a entrada de Lampião no imaginário brasileiro, com sua chegada a Juazeiro, em 1926, para combater a Coluna Prestes.

"É aí que o personagem aparece pela primeira vez na imprensa, que vemos seu rosto. Parece uma verdadeira foto de estúdio que se apropriou dos modelos de figuração cinematográficos da época. Lembra Rodolfo Valentino", comenta a historiadora.

CANGACEIROS
Autora:
Élise Jasmin
Editora: Terceiro Nome
Quanto: R$ 60 (152 págs.)

(© Folha de S. Paulo)


Maria Bonita era "poser'; Dadá, mais tradicional

DA REPORTAGEM LOCAL

No caso específico das mulheres, os registros coletados por Élise Jasmin revelam tanto seu desejo de dignidade, quanto sua vaidade. A historiadora diz que as fotos permitem ver as diferenças profundas de percepção que as cangaceiras tinham de suas próprias imagens, sobretudo Maria Bonita, mulher de Lampião, e Dadá, companheira de Corisco.

"Enquanto Maria Bonita se arrogava muitas vezes o direito de posar à moda da cidade e de se apropriar dos modelos de figuração ditos burgueses, Dadá não posava individualmente, mas sempre ao lado do marido. E não sucumbia à tentação de seguir outros modelos que não os do cangaço, usando sempre roupas tradicionais", conta Jasmin.

"A foto dela com Corisco chama a atenção: percebe-se o engajamento de Dadá, um ato de fé no cangaço. Ela descansa a mão sobre o ombro de Corisco. Este gesto exprime a pertença, a camaradagem, a solidariedade. Dadá e Corisco posam como dois indivíduos iguais, conscientes da força que emana deles. São dois puristas."
Um exemplo contrário seria, para a historiadora, a foto de Lampião e Maria Bonita com cães. Ela aparece sentada, acariciando os animais, e Lampião de pé, lendo uma revista.

"Temos aqui todos os ingredientes de uma foto dita burguesa. Mas, na falta de filhos, são os cães que posam ao lado de Maria Bonita. A vida no cangaço não permitia cuidar de crianças. Lampião segura de modo desajeitado a revista, com seus dedos cheios de anéis. E os cães, a decoração natural com mato e árvores raquíticas, tudo isso coloca estes dois atores de volta ao quadro cruel do cangaço." (ES)

(© Folha de S. Paulo)


Cangaceiros aterrorizaram o Nordeste

DA REPORTAGEM LOCAL

Grupo de bandidos que assaltavam fazendas, seqüestravam coronéis e saqueavam armazéns, os cangaceiros aterrorizaram o Nordeste brasileiro entre meados do século 19 e início do século 20. Nômades, viviam perambulando pelo sertão, o que tornava mais difícil sua captura.

O bando mais famoso e temido foi o de Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), o Lampião, pernambucano que "atuou" entre as décadas de 20 e 30 em praticamente todo o Nordeste.

Lampião, sua mulher, Maria Bonita, e outros dez companheiros foram mortos em 28 de julho de 1938, em Sergipe, pela polícia alagoana. Foram decapitados e suas cabeças expostas nas escadarias de uma igreja. Uma semana depois, o cangaceiro Corisco atacou cidades à margem do Rio São Francisco como vingança pela morte do amigo. Enviou algumas cabeças cortadas ao prefeito do povoado de Piranhas, com um bilhete: "Se o negócio é de cabeças, vou mandar em quantidade". Corisco, o último cangaceiro, foi morto em 1940. (ES)

(© Folha de S. Paulo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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