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11/11/2002
Filme se baseia em história real de retirantes FERNANDA DA ESCÓSSIA O ponto de partida é a praça do Meio do Mundo, no meio da Paraíba. Os personagens são pai, mãe e seis filhos. O pai, analfabeto, quer conseguir um emprego com salário de R$ 1.000 -nenhum centavo a menos- para sustentar a família. Para ganhar a estrada com tanta gente, o pai resolve que o jeito é acomodar a família em quatro bicicletas: os mais velhos pedalando, os pequenos de carona. Durante o caminho, ele decide ir para o Rio de Janeiro em busca do emprego. De bicicleta. A história real do paraibano Cícero Ferreira Dias, sua viagem de cinco meses e dois dias, do Nordeste ao Rio, sua busca obstinada pelo "emprego de mil reais", são a inspiração para o filme "O Caminho das Nuvens", dirigido por Vicente Amorim. Diretor de publicidade, Amorim, 35, soube da história em 1998, ao ler uma notícia relatando a aventura. Decidiu levá-la para as telas e conseguiu encontrar o migrante vivendo com os filhos numa favela em Bangu (no Rio). "Fui conversar com eles e expliquei que queria
fazer um filme sobre a aventura da família. Eles ficaram meio desconfiados no início,
mas aceitaram contar como fora a viagem", conta o diretor. Para se preparar para o filme, Amorim rodou o Nordeste de carro, refazendo o percurso de seus personagens junto com o roteirista Davi França Mendes. A viagem rendeu-lhe seu primeiro longa, o
documentário "2000 Nordestes", sobre o imaginário nordestino. No cinema, Cícero virou Romão, e os seis filhos viraram cinco, com idades entre dez meses e 14 anos. No mais, o roteiro da viagem da ficção é semelhante ao que foi feito na realidade. Da Paraíba, a família vai a Juazeiro do Norte, no sul do Ceará, onde visita a estátua do padre Cícero. Depois, eles descem pela Bahia e viajam pelo litoral até o Rio. As filmagens foram concentradas em três lugares: seis semanas na região de Juazeiro do Norte, uma semana em Porto Seguro, na Bahia, e uma no Rio, incluindo a favela da Maré (zona norte), onde a família do filme vai morar. Nesse road movie sobre bicicletas, o combustível é a busca de Romão pelo "emprego de mil reais". Na estrada, a família vai fazendo amigos e inimigos, correndo riscos, conhecendo pessoas e lugares como o parque temático O Caminho das Nuvens, que dá nome ao filme. Entre o pai e o filho mais velho, Antônio, está um dos núcleos de tensão da história, pois o garoto não aceita a decisão do pai de arrastar a família estrada afora. Enquanto isso, a mãe, Rose, e o segundo filho da
escadinha de crianças, Clévis, cantam músicas de Roberto Carlos para ajudar a família
a ganhar uns trocados na estrada. No elenco principal, Cláudia Abreu (Rose) é a única não nordestina. Romão é vivido pelo baiano Wagner Moura, e Antônio, pelo paraibano Ravi Lacerda, ambos de "Abril Despedaçado" (Walter Salles). As outras crianças foram selecionadas em cerca de 1.400 testes. As escolhidas são todas de Juazeiro, inclusive Felipe Newton, que vive Clévis, o fã e imitador de Roberto Carlos. Todo o elenco teve aulas de prosódia com uma especialista da Urca (Universidade Regional do Cariri), no Ceará. Cláudia Abreu, para aprender o sotaque nordestino; os demais, para unificar o jeito de falar e suavizar, no caso dos meninos de Juazeiro, o acento às vezes difícil de entender. "O Caminho das Nuvens" está em fase de montagem e deverá ser lançado em meados do ano que vem. Até lá, a equipe de Amorim tenta obter notícias do paradeiro de Cícero Ferreira Dias, verdadeiro protagonista dessa história, que não entra em contato com a produção há mais de um ano. Depois de vender os direitos de sua aventura, Dias comprou um carro e voltou para a Paraíba com a mulher e os filhos. Chegando lá, avisou que tinha vendido o carro. Pensava em viajar de novo, pegar a estrada mais uma vez. De bicicleta. (© Folha de S. Paulo)
DA SUCURSAL DO RIO Contar a história de seu personagem sem fazer sociologia nem paternalismo, apesar da inevitável metáfora de Brasil evocada por Cícero/Romão -faminto, analfabeto, devoto do padre Cícero e obstinado em busca de um emprego. Esse é, para o diretor Vicente Amorim, o maior desafio de "O Caminho das Nuvens". "Não é um filme sobre o Brasil, é a história dessa família dentro do Brasil. Não tentei, através do microcosmo dessa família, fazer um analogia para todos os nordestinos ou todos os brasileiros, apenas tentei contar a história dessa família", afirma o diretor. Ao mesmo tempo, Amorim sabe que o filme provoca metáforas inevitáveis, especialmente no contexto atual, em que se discute o combate à fome e em que o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, foi um retirante nordestino. Outra tentativa, diz o diretor, foi a de fugir do enfoque "piedoso", comum quando se trata do Nordeste, falando de seca, retirante e fome. Amorim situa seu filme na série de produções recentes que voltaram o olhar para o Brasil da exclusão. O diretor diz que os temas sociais estão sendo
redescobertos. Para ele, há um sentimento de despertar para a brasilidade, como se o
Brasil estivesse "perdendo a vergonha de ser brasileiro", e, ao mesmo tempo, o
entendimento de que esses temas são os mais ricos, que rendem melhores histórias.
"A pequena burguesia brasileira é de um enfado absoluto." (© Folha de S. Paulo)
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