|
15/11/2002
Ele completou 60 anos em junho passado,
mas a temporada de comemorações ainda não terminou. Na noite de terça-feira, num
jantar com a cúpula da Warner, alguns amigos e familiares e poucos jornalistas, Gilberto
Gil recebeu a caixa Palco, que, com 28 CDs, reúne todos os discos lançados
no Brasil pela gravadora incluindo até o recente Kaya N Gan Daya
raridades editadas apenas no exterior e dois álbuns com faixas inéditas, sobras
de estúdio das décadas de 80 e 90. Gil, que também foi presenteado com um anel de
brilhante encomendado ao joalheiro Antonio Bernardo, tem mais o que comemorar neste fim de
2002. Como os 40 anos de sua estréia em disco um compacto com Povo
petroleiro e Coça, coça, lacerdinha, ambas de Everaldo Guedes, que fez
em 1962, em Salvador, para o selo local JS, agora pela primeira vez em CD nesta caixa
e os 25 anos de sua entrada na Warner. Mas, voltando de mais uma turnê européia,
o que não faltam é projetos. Entre eles, a reunião dos Doces Bárbaros com Gal,
Bethânia e Caetano no concerto na Praia de Copacabana, em dezembro, que fechará a
série Pão Music 2002 e será filmado por Andrucha Waddington:
Ainda não fechamos o
repertório, mas com certeza cantaremos Superbacana, que fala em Copacabana, e
mostraremos inéditas adianta Gil, cantando o trecho de uma delas, Máquina
de ritmos, samba que faz referência aos conjuntos vocais pré-bossa nova Anjos do
Inferno e Bando da Lua.
Leve demais para a política
Ainda em dezembro, ele gravará
Kaya N Gan Daya ao vivo (entre os dias 27 e 29 de dezembro, no Teatro
João Caetano) e fará um concerto de Natal para a comunidade da Rocinha
Depois que instalei meu escritório na Estrada da Gávea, passei a conviver mais com
os moradores de lá e junto com eles surgiu a idéia do show que farei na tarde do dia 25
de dezembro. Antes, participa da próxima edição do projeto Conexão Urbana, com
MV Bill e o grupo AfroReggae (dia 24 de novembro, no Complexo da Maré). E será que esse
Gil cada vez mais ligado aos movimentos de inclusão social, cabo-eleitoral ativo na
campanha de Luiz Inácio Lula da Silva, sonha com algum cargo no novo governo?
Acho que Lula vai precisar de um
ministério duro, hard , e eu sou muito soft para a política, que é uma arte marcial, e
não sonho com isso (risos).
Lançado o monumental Palco,
quem sonha agora é a Warner: com a renovação do contrato de Gil. Ele só deve um disco
à multinacional, à qual ajudou a se instalar no Brasil junto ao amigo André Midani, e
não tem pressa em discutir seu futuro. Mas adianta que o início de 2003 está reservado
para a amiga Rita Lee. Companheira de primeira hora na Tropicália quando fazia
parte dos Mutantes, que acompanharam Gil no Festival da Record de 1968, no clássico
Domingo no parque a roqueira paulistana excursionou em 1977 pelo Brasil
com o baiano no show Refestança, registrado num disco ao vivo:
Rita está em dúvida se iremos
chamar de Refestança 2. Penso que não, mas, independentemente do nome, vamos
nos juntar para compor e ensaiar, ela está empolgada, cheia de idéias.
Como se vê, o jovem sexagenário,
exibindo de volta os cabelos dreadlock , em homenagem a Bob Marley, é também um vulcão
de idéias e projetos. E o fato de ter seu passado musical encaixotado, de voltar aos
velhos discos alguns até datados, como os do flerte com o pop, caso de
Extra (83) e Raça humana (84) é mais um estímulo.
Tiragem pequena, preço alto
Palco teve direção de
produção do pesquisador Marcelo Fróes que, em 1999, já organizara outra caixa
do cantor, Ensaio geral, esta com o material registrado em sua primeira
gravadora, a Phonogram/PolyGram (atual Universal), entre 1966 e 1975 e tem tiragem
pequena (duas mil caixas numeradas) e preço alto (em torno de R$ 800), mas, para os fãs
da MPB, é um indispensável item de colecionador. Os discos vêm em charmosas capas de
papelão, como miniaturas dos velhos LPs, com completas fichas técnicas, letras e textos
de Fróes, que entrevistou Gil sobre detalhes de cada trabalho. É tudo tão bom que dá
pena pensar que pouca gente terá acesso à caixa. Principalmente aos discos mais raros
Salvador, 1962-1963 (o que traz as primeiros gravações de Gil),
Nightingale (que ele fez em 1977, no EUA, produção de Sérgio Mendes), a
trilha de Quilombo (de 84, para o filme de Carlos Digues), Ao vivo em
Tóquio (86) e Soy loco por ti America (lançado em 87 na Europa e nos
EUA) e aos dois inéditos, To be alive is good (anos 80) e
Its good to be alive (anos 90). Para ficar completo este levantamento,
ficou faltando o segundo disco que Gil gravou em 1982 nos EUA, para o mercado americano, e
nunca lançado. Apesar de contar com produção de Ralph McDonald e a participação de
músicos como Steve Gadd (bateria), Marcus Miller (baixo), Richard Tee (teclados) e a
cantora Roberta Flack, Gil não ficou satisfeito com o resultado.
Seria necessário achar a fita
master original para incluí-lo na caixa, e só tenho um cassete dele, que iria se chamar
Jump for joy explica Gil.
Diretor de marketing estratégico da
Warner, Marcelo Maia não garante uma nova tiragem Tão cedo não faremos, é
uma produção quase artesanal, explica e também descarta o que seria o
ideal: a edição e a venda em separado de cada título. Antonio Carlos Miguel, do
jornal O Globo
(© GloboNews)
| Das tripas coração |
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
ENVIADO ESPECIAL AO RIO DE JANEIRO
É mais que uma (caríssima) caixa de 28 CDs recuperando toda a discografia
individual de Gilberto Gil, 60, entre 1975 e 2002. "Palco" vai às entranhas do
artista baiano, somando ao material oficial 60 faixas-bônus, um disco que ficara inédito
no Brasil (a trilha do filme "Quilombo", de 84), outro totalmente inédito (a
trilha do balé "Z", de 95) e dois volumes de sobras de estúdio dos anos 80 e
90.
E não é só isso. Pela primeira vez se relançam,
num CD à parte, oito raríssimas gravações feitas pelo jovem Gilberto Gil entre 1961 e
1963, em Salvador, por um selo independente. A Warner promete que todo esse material de
elite será também editado em CDs individuais, mas só no próximo ano.
O que se constata do farto material inédito reunido
pelo pesquisador Marcelo Fróes é que é majoritariamente composto de precárias versões
demo. São, além disso, canções que foram rejeitadas por Gil na composição de LPs
comerciais como "Luar" (81), "Um Banda Um" (82) e "Extra"
(83).
Gil afirma não se preocupar com o fato de a
revelação das faixas demo devassar seu processo de criação. "O fato de colocar
sobras de discos é uma bandeira incrível, porque é aquilo que rejeitei quando fiz, o
que não estava no padrão, em princípio. Acho bom. Não me importa essa exposição de
ir para dentro dos intestinos, ver a feiúra que há por trás."
O artista responde se tais faixas foram abandonadas
porque eram ruins: "Sinceramente não lembro quais eram os critérios de rejeição,
mas quase certamente eram problemas de arte-final, de insatisfação com resultados. Nada
mais que isso".
Do bailado dos baús de músicas, em que artistas
vão apanhando para cada novo disco canções que haviam sobrado de trabalhos anteriores,
Gil diz que sai da caixa "Palco" com o reservatório quase vazio. Mas nem nisso
demonstra preocupação: "Agora é produzir, fazer outras coisas".
Um novo projeto, aliás, já está em curso: o reencontro com a colega de geração Rita
Lee, com quem já havia feito a turnê/disco ao vivo "Refestança" (77).
"É ela que quer, já está fazendo letras, excitadíssima. É um projeto de sair por
aí cantando, provavelmente deve virar disco. Rita quer muito, se ela quer, eu
quero."
Ponto bem explorado nos textos que acompanham a caixa
é o de uma crise criativa que acometeu Gil entre "Luar" e "Um Banda
Um" e que o fez rejeitar consecutivamente dois álbuns inteiros -o autor e Fróes
não acharam esse material para acrescentá-lo à caixa-preta agora aberta.
"É a única crise da qual tenho lembrança em
minha carreira. Cada novo disco era estimulado pela inércia, era basicamente uma coisa
automática. Vi que não estava como eu queria, parei de fazer, fui montar uma nova banda.
Aí consegui certa satisfação", conta.
Hoje, ele tenta reavaliar a crise. "Você está
jovem, fogoso, querendo ocupar seu espaço, garantir seu pódio olímpico. Chega uma hora
em que isso leva à crise. Você não se importa com a velocidade. Quanto mais veloz,
melhor. Ou seja, pior. Mas assim é a vida."
Isso teria por acaso transformado nos menos
interessantes de sua história os discos a partir de "Realce" (79) até o
mergulho na nascente cultura pop-rock dos 80? "Pode ser que sim, mas acho que talvez
desinteressante fosse tudo aquilo, o período todo, o tipo de música que se fazia. Mas
acho que ainda vamos gostar muito dessas coisas, quando envelhecerem."
Seja como for, o período desembocou em outro também
descrito na caixa, de quando o artista quis virar político, tornando-se, em Salvador, a
partir de 88, secretário de Cultura, postulante (vetado pelo PMDB) a prefeito e vereador.
Gil fala sobre aquela fase e responde se ela
prejudicou sua carreira musical: "O desmonte da União Soviética por Gorbatchov me
excitou muito. Foi suficiente para me dar vontade de atuar na política. Tive que ficar
mais preso a Salvador, tirei pelo menos 50% do meu tempo de dedicação artística para
dar à política. Sem dúvida nenhuma prejudicou, sim".
O homem que se entusiasmou com o desmonte do
socialismo soviético se converteu agora em entusiasta de primeira hora da quarta
candidatura Lula, embora afirme que não aceitaria um aceno (que, diz, não houve até
agora) para ser ministro, como aconteceu antes por parte de FHC.
"Digo que não, por uma razão muito clara. Lula precisa, no seu primeiro
ministério, de pessoas que saibam dizer não com firmeza. Eu não tenho esse
perfil."
Comenta sua própria viagem, de Gorbatchov a Lula:
"Da mesma forma que Gorbatchov excitava pelo desmonte de uma coisa desgastada e já
não promissora, o Lula, ao contrário, entusiasma pela montagem de algo novo e promissor,
com um novo risco que o país resolveu correr".
Diz não temer um retrocesso a valores
pré-Gorbatchov: "Esse medo nunca existiu. O fato de o povo ter votado no Lula
significa claramente uma desvinculação desse medo. Ficou claro para todo mundo que Lula
vinha com uma proposta de um PT diferente, mais ao centro, mas ainda com a visão
socialista do compromisso com os desassistidos. De esquerda hoje é aquele que defende os
interesses dos não-satisfeitos".
Gil, pró-Lula, virou então um não-satisfeito?
"Não, sou eu defendendo os interesses dos não-satisfeitos. Eu sou um
satisfeitíssimo (ri), imagina só."
(© Folha de S. Paulo)
CRÍTICA
Crise dos anos 80 é o xis da questão na caixa
DO ENVIADO AO RIO
Gilberto Gil se revela um valente ao permitir que o
esqueleto da construção de sua obra, principalmente nos anos 80, seja exposto da forma
dramática como a caixa "Palco" o faz. Não é um retrato feliz o que sai da
dissecação, e o valente sabe disso.
A caixa parte do lado luminoso, com as riquíssimas e
praticamente inéditas gravações de samba na Bahia do início dos anos 60 e os
extraordinários álbuns "Refazenda" (75) e "Refavela" (77). Chega
até a parcial recuperação criativa dos anos 90 e 2000, de "Parabolicamará"
(92) e dos recentes discos de projeto para Luiz Gonzaga e Bob Marley.
O xis da questão, entretanto, está nos anos 80. É
quando Gil se joga afoito demais à disco music e ao reggae, por um lado, e a mimetizar a
nascente (e de início combativa) geração pop-rock. Rende discos indecisos, inseguros.
Mas vem a caixa "Palco" e resgata do anonimato o que foi rejeitado dali -ou
seja, supostamente o que era menos aceitável que rocks tipo "Punk da Periferia"
(83) e reggaes tipo "Vamos Fugir" (84).
De fato, não há revelações grandiosas entre as
ex-inéditas, e talvez elas percam mais ainda por serem gravações demo, com fracas
vozes-guias, quase de consumo caseiro mesmo. De novo, está aí a audácia de Gil em
colocar em carne viva brinquedos privados.
Mas aí se ouve "Música Moderna" (82), e
eis os mistérios desvendados. Nela, um Gil desencantado diz, entre outras confissões:
"O que eu canto agora/ é simplesmente música moderna/ feita pra consumo como fumo
é/ como tudo que se vê no mundo agora é/ produto da era industrial".
Ele cantava isso vindo de críticas até do amigo
Caetano Veloso, na época de "Realce" e "Toda Menina Baiana" (79), e
de "Luar", "Palco" (81)... Estava prestes a mergulhar em "Andar
com Fé" (82), "Extra" (83), "Pessoa Nefasta" (84)... A
rejeição de "Música Moderna" diz tudo: o consumo venceu. Resultou em
canções e roupagens ruins? Não necessariamente. Mas ofuscou um Gil mais livre, audaz e
produtivo, isso sim.
Ele voltaria ao assunto em "It's Good to Be
Alive", nas sessões do altivo, mas ignorado "Dia Dorim, Noite Neon" (85).
Ainda desencantado e prestes a querer ser político de centro, Gil ali cantava, em
inglês: "Agora eu vou desistir/ de todas as minhas possessões/ minhas paixões/
minhas canções". Também não foi lançada, ficou inédita. E "Palco"
revela, enfim.
(PEDRO ALEXANDRE SANCHES)
(© Folha de S. Paulo)
Palco
Artista: Gilberto Gil
Lançamento: Warner
Quanto: entre R$ 700 e R$ 900 (28 CDs), preço sugerido pela gravadora
|
Com relação a este tema, saiba mais
(arquivo NordesteWeb)
|
|