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A queixa de Marcélia: na TV, só fez domésticas

23/11/2002

Marcélia Cartaxo no início da carreira, em 86, e hoje, aos 40 anos, dirigindo seu primeiro curta metragem

A última foi Quirina, de 'Porto dos Milagres'. Mas o cinema lhe faz justiça: Urso de Prata em Berlim por sua inesquecível Macabéa, em 1986, ela hoje é destaque em Madame Satã

   Ela não era da turma dos engajados políticos nos tumultuados anos 60, também não dançou no 'Frenetic Dancin' Days' e nunca entendeu direito de que tratava aquele tal de 'Hair'. Apesar de ser a antítese do glamour, a paraibana Marcélia Cartaxo, com seu sotaque forte e modestos 1,50 de altura, chegou ao mundo artístico, em 1986, já com pose de estrela. "De repente estava perdida, com meus vestidos de chita, em São Paulo", lembra a atriz, hoje com 40 anos.

   No mesmo ano em que deixou o pai agricultor e a mãe costureira na nordestina Cajazeiras para se aventurar em São Paulo, ganhou o 'Urso de Prata' de melhor atriz no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

   O filme era 'A Hora da Estrela', dirigido por Suzana Amaral e inspirado no livro homônimo, que Clarisse Lispector escreveu para contar a saga de Macabéa, uma nordestina que se muda para o sudeste. "Parece que foi escrita para mim, mas quero um final mais feliz".

   Os dias de Cinderela de Marcélia duraram pouco. Depois do prêmio, ela teve de sobreviver alguns anos das cinzas de Macabéa, pois um novo convite só surgiu em 1990, quando entrou para a constelação global, para viver a empregada Divina, da novela 'Mico Preto'.

   Marcélia mal havia se livrado da sombra da triste imigrante quando arrumaram para ela o estigma de empregada doméstica. "Sempre que me ofereciam um papel, logo pensava: mais uma empregada!"

   Á última das domésticas foi Quirina, de 'Porto dos Milagres', personagem que marcou também a despedida de Marcélia da tevê, em 2001. "Ainda pretendo fazer muitas novelas", avisa.

   Apesar do relativo sucesso na tevê, no cinema Marcélia coleciona personagens de peso. A mais recente é a prostituta Laurita, do filme 'Madame Satã', dirigido por Karin Ainouz. "Pela primeira vez interpreto um tipo mais sensual".

   A paixão pelo cinema é tamanha que Marcélia decidiu atacar também de diretora. "Estou dirigindo 'Tempos de Ira', meu primeiro curta-metragem", contou a atriz, diretamente de João Pessoa, onde grava as cenas do filme.

   Morando no Rio há mais de dez anos, a atriz aproveita a passagem por Paraíba para rever a família. "Lembro dos tempos de garota, quando fugia de casa para ensaiar às escuras, no quintal de amigos."

   A equipe de Marcélia era a 'Turma do Mickey', composta por uma dúzia de crianças que encenavam um repertório dos mais convencionais. " Queríamos montar 'Chapeuzinho Vermelho' e dublar 'As Frenéticas', conta. "Uma vez por ano, a turma ia para João Pessoa, e era como se fôssemos para Hollywod."

   A mãe de Marcélia foi quem menos gostou da idéia de ver a filha virar atriz. "Para ela, atriz se tornava prostituta e ator era vagabundo."

   De nada adiantaram as repreensões da mãe. Marcélia pegava os trocos que o povo depositava no Santo Antônio e ia ventando para o cinema, sonhar com Greta Garbo e Marilyn Monroe. "Ele deve ter achado bom investimento, porque nunca me descobriram", conta. "Eu dizia: um dia lhe pago, meu santo."

   Certa vez, o grupo de Marcélia resolveu montar 'Beiço de Estrada', um texto original de Eliezer Filho, único universitário da equipe. "Viajamos pelo Brasil todo, como parte do projeto Mambembão", lembra.

   Quando a montagem chegou a São Paulo, Marcélia encontrou a oportunidade que outras atrizes passam a vida perseguindo. Da platéia, a cineasta Suzana Amaral observava o jeito tímido e forte daquela menina, então com 23 anos.

   Começou a ver Macabéa, um pouco feia, meio bicho do mato. Naquela noite, finalmente havia chegado a hora de uma grande e corajosa estrela começar a brilhar. GIULIANA REGINATTO

(© Jornal da Tarde)

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