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10/09/2001

Novas visões da Terra do Sol

Os diretores Vicente Amorim e David França Mendes aproveitaram mais de cem entrevistas para analisar o comportamento da população nordestina

Com surpreendentes entrevistas, '2000 Nordestes' expõe panorama menos desencantado da população nordestina

RODRIGO FONSECA

   Viajando pelos estados do Nordeste em abril de 1999, levantando dados para um longa-metragem sobre migração, os cineastas Vicente Amorim, 34 anos, e David França Mendes, 39, resolveram conferir se o painel miserável da região imortalizado pelo Cinema Novo durante a década de 60 permanece inalterado. Constataram que a miséria e a desigualdade ainda estão lá nas paisagens de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia. Mas depois dos cem depoimentos repletos de alegria, fé e esperança, que recolheram durante a viagem e transformaram no documentário 2000 Nordestes, que estréia sexta-feira no Rio, os dois concluíram que, aos olhos de seus habitantes, a paisagem nordestina não se limita à miséria que a emblematizou nas telas.

   Para contrastar com a interpretação romântica do Nordeste criada pelos cinemanovistas, Vicente e David utilizaram imagens de duas das mais importantes produções do movimento, Vidas secas (1963) e Deus e o diabo na Terra do Sol (1964). ''A visão da mídia sobre o Nordeste permanece a mesma desde a década de 60. É claro que seus problemas continuam. Um pai muitas vezes não tem como sustentar seus filhos. Mas a região evoluiu em muitos aspectos'', explica David França Mendes.

   Programa do Ratinho - Partindo de desabafos espontâneos sobre assuntos variados - de Deus ao programa do Ratinho -, os diretores procuraram traçar o comportamento da população local, aproveitando a sinceridade dos personagens. Para isso percorreram casas ao longo de cinco estados conversando sobre oportunidades de emprego, religião, amor, música e as principais tradições folclóricas.

   Ouviram relatos ora deprimentes, como o da senhora que apela a Deus para que sua casa não desabe, ora de arrancar gargalhadas, como o do pescador que, empolgadíssimo, arranca a camisa para provar que é cidadão. ''Apesar de toda dificuldade, as pessoas não escondem imensa alegria de viver. É curioso ver como, apesar da miséria, conseguem alimentar esperanças'', afirma Vicente Amorim.

   Investigando os passatempos mais comuns de seus entrevistados, os cineastas invadem shows de forró e bailes de axé music filmando as danças que viram moda a cada carnaval. A dupla também invade um ônibus de viagem rumando para São Paulo, onde conversam com os passageiros sobre as razões que os levaram a abandonar o Nordeste e tentar a sorte no Rio. ''O desejo de sair demonstra esperança, crença em uma vida melhor'', aponta Vicente Amorim.

   Viagem de bicicleta - O êxodo dos nordestinos para o Sudeste foi a questão que originou 2000 Nordestes. O documentário foi conseqüência de um projeto chamado O caminho das nuvens, longa-metragem baseado na história real de uma família de sete pessoas que deixou a Paraíba e veio para o Rio de bicicleta. Enquanto reuniam subsídios para o filme, que começam a rodar em fevereiro de 2002, Vicente e David resolveram levar sua pesquisa para a telona. ''Aproveitamos para documentar o Nordeste. Mas a idéia agora é fazer um filme sobre uma viagem que pareceria clichê se aquelas sete pessoas não tivessem vindo de bicicleta, com o pai procurando um emprego que pudesse lhe pagar R$ 1 mil. Uma história que fala sobre a possibilidade de sonhar'', diz Vicente.

   Ambos os projetos foram abraçados pelo produtor baiano Luiz Carlos Barreto, 73, que defende o potencial do Nordeste para o cinema nacional. ''2000 Nordestes é um documentário sobre migração. Sobre quem vem, quem não vem, quem vai. E essa é apenas mais uma visão sobre o Nordeste, já que a região é uma matriz cultural muito rica, capaz de inspirar muitas outras histórias'', explica Barreto, que a partir do ano que vem começa a co-produzir outro longa em solo nordestino, A mulher da areia. (© Jornal do Brasil)

Um Bob Dylan do sertão na cidade grande

Paraíba do Forró Foto: Fabio Seixo (O Globo)

João Pimentel

   O lançamento hoje, às 19h30m, no Cine Odeon BR, do documentário “2000 Nordestes”, de Vicente Amorim e David França Mendes, que foca as diversas realidades do nordestino — tanto os que ficaram na terra natal quanto os que se aventuraram na viagem sem volta para as grandes capitais — terá uma atração-síntese do filme. Paraíba do Forró, o Showman, não é o protagonista da fita, longe disso. Ele é apenas mais um dos personagens da enorme colcha de retalhos humanos que desfia as desilusões, as esperanças e a incrível capacidade do nordestino de sorrir diante da miséria absoluta. Mas acabou roubando a cena com o seu imenso carisma.

   Nascido José Antônio Bandeira, Paraíba não se tornou um personagem por acaso. Sua mãe, Isabel Bandeira, já aprontava desde o início do século passado. Conhecida como Vassoura, ela tinha o hábito de surgir nos lugares montada num jumento ou num cavalo, enrolada na bandeira do Brasil. Foi assim na prefeitura, no carnaval e até no quartel da PM, onde, ao invés de ser expulsa, acabou por comandar uma parada de Sete de Setembro.

   Ao se embrenharem pelo interior do Nordeste em busca de personagens para o documentário, os diretores acabaram por encontrar Paraíba na cidadezinha de Santa Rita, próxima a João Pessoa. Além de um músico talentoso, rústico, o cantor é um inventor de esquisitices. De sua cabeça saíram alguns veículos bizarros, como um triciclo que mistura pneus de carros e de bicicletas e uma “motoqueta” com farol de milha, e o próprio instrumento que toca. Se Bob Dylan toca gaita e violão ao mesmo tempo, Paraíba acompanha o seu surdo aro quatorze com a sua “gaita vocal”.

   — No começo eu tentava soprar como a uma flauta. Mas aquilo me cansava. Então eu adaptei o instrumento para a minha fala. Ele reproduz o som do meu canto — diz Paraíba.

   Músico intuitivo, Paraíba começou tocando em trios de forró, como ele mesmo diz “pé-de-serra sob a luz do candeeiro”. A primeira oportunidade foi com o forrozeiro Zito Borborema.

   — Naquele tempo tinha que tocar mesmo. Não tinha tapinha. Era mambo, rumba e cha-cha-chá.

   Em busca de dinheiro, o músico foi para o Recife onde conheceu e tocou com Genival Lacerda, seu grande ídolo. Depois acompanhou um tal de Cearense do Violão, mas a divisão de dinheiro era muito desigual e ele resolveu partir para a sua carreira solo.

   E carreira solo para este Bob Dylan do sertão é solo mesmo. Criou a já citada gaita e passou a se apresentar dentro dos ônibus e na praia para garantir um troco. Há pouco tempo foi obrigado a modificar seus planos individualistas e o intitulado Grupo Paraíba do Forró passou a se chamar Paraíba do Forró e seu Menino, já que o filho Itamarzinho, de 10 anos, aprendeu a tocar triângulo, surdo, gaita vocal — olha ela aí de novo! — e até a cantar numa espécie de “paraibenglish”.

   — Quando eu vi, estava este garoto cantando músicas no inglês dele. Nordestino tem essa mania de falar gringo — brinca Paraíba, que já tinha estrelado um dos episódios da série “Som da rua”, de Roberto Berliner, exibida pela TVE.

   A convite da produção, o músico veio acompanhado de seu filho e de um amigo, pela primeira vez, ao Rio de Janeiro. Para não perder a viagem, teve que tirar, aos 59 anos, sua primeira carteira de identidade.

   — O secretário de Cultura não acreditou que eu vinha para o Rio de Janeiro e quase que eu perco o ônibus.

   Na viagem, para não perder o hábito, fez duas apresentações de duas horas e só parou porque o filho se cansou. A cada parada, perguntava onde estava e quando olhou pela janela na Ponte Rio-Niterói, pulou para o meio do corredor e só sossegou quando desceu do ônibus.

   — É muito alto, parecia que eu estava num helicóptero!

   Depois de uma sessão do filme na PUC, na qual chegou a chorar, e de um debate, em que virou atração com o filho, Paraíba não via a hora de entrar num ônibus para testar o seu carisma na Cidade Maravilhosa.

   — O Paraíba tem a alma do nosso trabalho. Ele sabe se virar para superar as dificuldades com muito bom humor e inventividade — diz o diretor David França Mendes.

   Como todo artista popular que se preza, Paraíba é tratado em sua cidade mais como um personagem engraçado do que como um músico de verdade. Quando recebeu a fita com imagens do documentário, ele saiu pala vizinhança gritando que era um artista.

   — Até a minha mulher desconfiava quando eu dizia que era um artista de verdade.

   A temporada no Rio, que inclui um roteiro com passagem pela Feira de São Cristóvão e pontos turísticos, é um sonho para o Paraíba do Forró e para o seu menino. A frase dita por uma das crianças do filme define o espírito da dupla.

   — Eu espero um futuro cheio de realidades.
(© Jornal do Brasil)


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