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05-06-2008
Dramaturgo e ensaísta mostra seu talento de artista plástico com a reunião de 20 obras, criadas nos anos 80 e 90 ÂNGELA LACERDACorrespondente RECIFE - Dramaturgo, ensaísta, romancista, professor, fundador do Movimento Armorial - que revela o erudito na arte regional -, Ariano Suassuna, de 76 anos, também é artista plástico. Este seu aspecto criativo, pouco conhecido do público, pode ser conferido na exposição de 20 iluminogravuras criadas nos anos 80 e 90, aberta ontem ao público e em cartaz até o dia 12. Modesto, ele avisa ser um amador, um escritor que "por acaso" ilustra sua obra. "No meu caso, as artes plásticas são resultado da fonte literária", afirma. "O desenho não tem vida própria, nasce da imagem literária, tem papel subsidiário em relação à literatura." Nas iluminogravuras, o desenho ilustra sonetos e mostra o seu lado poeta. "Minha poesia é pouco conhecida, mas sempre a pratiquei e considero a poesia a fonte profunda de tudo o que escrevo." O amor pela poesia e a paixão pelas artes plásticas geraram a iluminogravura, expressão criada por ele e que significa a fusão das palavras iluminura e gravura. "Na tradição da arte medieval, as chamadas iluminuras eram obras feitas normalmente nos mosteiros e conventos, por frades, muitas delas tendo como assunto o Apocalipse", explica Suassuna. "Os frades faziam as gravuras e juntavam aos textos apocalípticos, o que era chamado iluminura." Ele resolveu fazer o mesmo usando a forma da gravura moderna. O processo usado por Suassuna na confecção das iluminogravuras é descrito, na apresentação da mostra, por Carlos Newton Júnior, professor de Estética e História da Arte da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e autor de dois livros sobre a obra do escritor: "Suassuna produz primeiro uma matriz da ilustração e do texto manuscrito, com nanquim preto sobre papel branco. Em seguida faz cópias da matriz em uma gráfica, no moderno processo do off-set. Cada cópia é então trabalhada manualmente, colorida a pincel com tintas guache, óleo e aquarela." As obras expostas pertencem aos acervos do Instituto Maximiano Campos e do advogado pernambucano José Paulo Cavalcanti e formam duas séries de dez trabalhos cada uma, intituladas Sonetos com Mote Alheio e Sonetos de Albano Cervonegro. Patrocinada pela companhia estadual de eletrificação (Celpe), a exposição ocupa a sede da empresa. A obra também é tema do brinde de fim do ano da empresa - um kit com seis reproduções de iluminogravuras. Múltiplo - Quando jovem, Suassuna disse ter "catucado" em mais de uma árvore - a da música, a da escultura, a da pintura. "Depois dos 20 anos, descobri que não estava na Renascença, quando o papa sustentava o artista, que podia praticar duas ou três artes", observa. A literatura prevaleceu. "Mas nunca deixei de desenhar." Em entrevista coletiva, ele contou que o seu romance A Pedra do Reino poderia ter sido ilustrado por amigos "artistas de verdade" e do quilate de Francisco Brennand e Gilvan Samico. Mas como os desenhos seriam atribuídos a um personagem, ele preferiu "baixar a qualidade" e fazê-los ele próprio. O aproveitamento da sua obra, que tem sido adaptada e divulgada em vários veículos artísticos, tem-lhe proporcionado grandes alegrias. "Não posso mais me queixar", reconhece ele, que há alguns anos reclamava do Brasil quando via, por exemplo, o que a Espanha fazia com a obra de García Lorca. A peça Bodas de Sangue, do autor espanhol, transformou-se em um balé "belíssimo" pelas mãos do coreógrafo e bailarino Antonio Gades que, por sua vez, virou filme sob a batuta do cineasta Carlos Saura. "Lá, o trabalho dos escritores correm o mundo, é aproveitado", constata Suassuna que recentemente viu um trabalho seu adaptado pelo Balé Stagium, admirou mosaicos realizados pelo artista plástico Guilherme da Fonte, tendo como tema o seu trabalho, além de testemunhar o sucesso de O Auto da Compadecida como filme e de Uma Mulher Vestida de Sol como especial de televisão. Seu romance Fernando e Isaura está em cartaz no Recife, numa adaptação teatral, em que o diretor Carlos Carvalho, com sua autorização, misturou o aspecto dramático e trágico com elementos cômicos de outras peças de Suassuna, que aprovou o resultado. "Foi mais uma ampliação."
(© O Estado de S.
Paulo) |
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