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Exposição revela a mais antiga arte do Brasil

05-06-2008

Obras expostas no CCBB

Roberta Jansen - O Globo

   RIO - "Quando não existia Brasil, havia índios em todo lugar", sentencia a arqueóloga Niède Guidon. Mas isso foi antes de Pedro Álvares Cabral, antes da colonização que acabou por ofuscar a rica herança deixada pelos primeiros habitantes do país. Resgatar essas culturas para os brasileiros e revelar sua dimensão artística é precisamente o objetivo da inédita exposição "Antes - histórias da pré-história", que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) inaugura na próxima segunda-feira, marcando seus 15 anos de existência.

   A mostra reúne pela primeira vez mais de 300 peças criadas pelos diversos povos que habitaram o Brasil desde a pré-história até a chegada dos portugueses. A colonização, sustentam as curadoras da exposição, as arqueólogas Niède Guidon e Anne-Marie Pessis, acabou renegando a herança indígena que, no entanto, ficou registrada em pinturas, esculturas, gravuras, objetos líticos e instrumentos musicais.

   - A arqueologia brasileira tem coisas fantásticas que os brasileiros não conhecem - sustenta Niéde Guidon. - A exposição é uma oportunidade de olharmos o passado.

   Os primeiros habitantes do Brasil tinham uma expectativa de vida de 30 anos e viviam em pequenos grupos, buscando se adequar ao meio ambiente. Eles não tinham escrita, mas desenvolveram meios de preservar sua memória.

   - O acúmulo de conhecimento impõe a necessidade de algum registro, alguma memória - explica Pessis. - A arte surge com função de sobrevivência, como uma das primeiras modalidades do sistema de comunicação. Pinturas rupestres são, na verdade, marcadores de memória. Ou seja, são uma pré-escrita.

   Tais registros surgem nas pinturas rupestres com suas cenas cotidianas, nos grafismos coloridos das urnas funerárias, nos intrincados arabescos de esculturas e até em sofisticados desenhos feitos nas primeiras tangas usadas em terras brasileiras.

   - A diversidade era muito grande - aponta Guidon. - O país foi povoado por pessoas vindas de diferentes locais, por diversos caminhos, em épocas distintas. É difícil ter um quadro coerente para isso tudo. São povos sobre os quais sabemos muito pouco.

   Para tentar traçar um panorama das diferentes culturas, a exposição está dividida em três módulos, referentes a regiões do país. O primeiro deles refere-se ao litoral e apresenta um conjunto dos chamados zoólitos, esculturas em pedra e osso com formas minimalistas, além de instrumentos e adornos, que remetem a aves e peixes. Neste módulo destaca-se a réplica de um sambaqui - estruturas feitas a partir do acúmulo intencional de conchas, areia e detritos, que podiam alcançar até 30 metros de altura e serviam de abrigo e local de sepultamento para os primeiros moradores das praias brasileiras.

   - A separação por região é importante porque normalmente as culturas e as economias se adaptam ao meio ambiente. Uns são caçadores, outros são coletores - esclarece ela. - Além disso, têm formas de expressão diferentes. Uns pintam, outros fazem cerâmica.

   No segmento Amazônia, são apresentados os muiraquitãs, os delicados objetos de forma humana ou animal talhados em pedra aos quais são atribuídas funções sobrenaturais. O módulo reúne também cerâmicas das culturas Santarém, Marajó e Maracá.

   Uma terceira parte da exposição refere-se ao interior do país. Imensas projeções de pinturas rupestres encontradas nos parques nacionais da Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, no Piauí, e do Seridó, no Rio Grande do Norte, poderão ser apreciadas, bem como esqueletos e crânios de até 11 mil anos, descobertos no Nordeste. Uma réplica de dez metros da mais famosa gravura rupestre do Brasil, a pedra lavrada do Ingá, que se encontra na Paraíba, será exibida. A pedra apresenta grafismos até hoje não identificados pela ciência.

   - Acreditamos que se trate de uma forma de escrita, algo sobre as origens e crenças daquele povo, mas não sabemos ler - conta Guidon.

    A exposição apresentará também os animais da chamada megafauna, grandes mamíferos que habitaram o país na pré-história. Uma réplica de sete metros de um esqueleto de preguiça gigante estará presa ao teto do CCBB.

O Globo)


ARTES PLÁSTICAS

Sob curadoria de Emanoel Araújo, instituição será inaugurada no dia 23 e ocupará pavilhão no Ibirapuera

Museu conta o Brasil sob a ótica do negro

FABIO CYPRIANO
DA REPORTAGEM LOCAL

   Além do pavilhão da Bienal, da Oca e do Museu de Arte Moderna, o parque Ibirapuera acolhe um novo espaço expositivo que será inaugurado em duas semanas sob a responsabilidade de Emanoel Araújo, 63.

   Responsável pelo "boom" das visitas aos museus paulista, que levou 120 mil pessoas à Pinacoteca, em 1995, número modesto perto das cifras das últimas mostras na cidade, como Picasso na Oca, que recebeu 830 mil visitantes, o curador e diretor, que terá pela primeira vez uma instituição inaugurada sob a sua completa orientação, espera criar novos paradigmas para o circuito nacional com o Museu Afro-Brasil de São Paulo.

   "Vamos inaugurar um museu em processo. Modernamente, não se pensa mais em museu como obra acabada. Teremos dez meses para organizar as exposições temporárias e para conceituar os conteúdos do museu, a partir do trabalho de um grupo de sociólogos, educadores, antropólogos e historiadores. O que se terá aqui não é apenas um espaço passivo mas um instrumento de uso, da valorização da auto-estima e, mais importante, que terá a história do Brasil contada a partir da ótica do negro", diz Araújo, em meio aos 9.000 m2 do pavilhão Manoel da Nóbrega, hoje praticamente vazios, o que ecoa ainda mais as reformas em curso.

   Criado por iniciativa da Prefeitura de São Paulo, o Museu Afro-Brasil será aberto com uma exposição de caráter permanente, a partir do acervo pessoal de Araújo, com cerca de 1.100 peças, cedido em comodato à Secretaria Municipal da Cultura por cinco anos. Desde o início da década de 80, o curador reúne documentos, fotos e objetos de arte sobre a história do negro no Brasil, para exposições por ele organizadas.

   "Não é uma coleção de arte material extraordinária, é uma arqueologia do que foi possível nos últimos 20 anos, iniciada a partir da exposição "A Mão Afro-Brasileira", no MAM. Em cada mostra que eu organizava, sempre amealhava uma coisinha ou outra", diz o curador, com um sorriso no canto da boca.

   O financiamento para a criação do museu vem da esfera federal de governo, da Petrobras, que desembolsou R$ 1,5 milhão para a reforma do prédio e outros R$ 4,5 milhões para o funcionamento dos primeiros dez meses, quando será realizado o plano de gestão do local. As obras correm em ritmo acelerado, com a abertura prevista no dia 23, uma semana antes do segundo turno das eleições, provavelmente a última inauguração importante do atual mandato de Marta Suplicy. Oportunismo eleitoral? "Não. O decreto de criação é de novembro do ano passado, estamos trabalhando dentro dos prazos previstos", afirma Araújo.

   De qualquer forma, o curador alfineta o governo estadual, que havia lhe entregado o Museu do Imaginário do Povo Brasileiro, no prédio do Dops, e depois passou o espaço para a Pinacoteca. "Nunca entendi por que a Cláudia Costin [secretária estadual da Cultura] não quis executar o projeto, que chegou a ser inaugurado. Mas ele ainda vai acontecer", diz Araújo com outro sorriso.

   De acordo com o curador, que não se define como diretor do museu -"isso será definido nos primeiros dez meses"-, o espaço terá três vertentes: história, memória e arte. "Aqui nos interessa desde uma pintura do século 19, realizada por Estevan Silva, que se negou a receber o segundo prêmio da Academia Imperial, em frente a dom Pedro, como uma pequena foto realizada por Militão Augusto do poeta Luis Gama, o abolicionista cujo enterro mais gente levou às ruas de São Paulo, no século 19. De certa forma, o século 19, para os negros, é a história de um fracasso", diz Araújo.

   Uma de suas mais recentes aquisições, que também estará presente na mostra permanente, é um conjunto de documentos sobre os escravos do barão de São Clemente, no Rio, que continham nome, idade, valor e profissão. "Os ofícios perpassam a escravidão. Muitos escravos, ao contrário do que se pensa, exerciam funções técnicas, como marceneiros ou até mesmo passadeiros. A história é um vetor importante do museu", diz o curador.

   E qual será o Rodin do Museu Afro-Brasil? "Estamos abrindo a primeira exposição temporária no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, que chama "Brasileiro, Brasileiros". Pela primeira vez, vamos mostrar o índio como formador da identidade, e não apenas como folclore. Foram os africanos que chegaram aqui e viram que os índios eram os donos da terra, pois partiam do princípio da África, segundo o qual o que valia era a ancestralidade. Assim, começamos por recontar a história do Brasil."

   Já no próximo ano, o museu sediará uma mostra com caráter internacional, a partir do acervo do Museu de Etnologia de Lisboa, sobre arte africana. Seria parecida com a recente exposição vista no Centro Cultural Banco do Brasil? "Aquela é uma coleção alemã", diz, com desdém, Araújo.

   Do curador, não param de jorrar planos. "Ah, vamos também ter um espaço para a arte contemporânea africana, que nunca é vista por aqui. Pretendemos ter uma importante interlocução internacional neste local", afirma Araújo.

   Espaço expositivo, espaço de pesquisa, qual será o privilegiado? "O que temos de pensar sempre é o holocausto que ocorreu aqui. Enquanto o Brasil não resolve aquilo que é a chave para entender esse país, isto é, a escravidão, não temos como pensar este país no século 21. É esse o nosso eixo central", afirma o curador, agora sem o sorriso nos lábios.

Folha de S. Paulo)

 

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